
Na semana passada estive em João Pessoa, na Paraíba. Fui de avião e voltei de carro para Salvador. Confesso: esperava uma viagem longa, cansativa e desgastante. Afinal, são mais de 900 quilômetros separando as duas capitais – e quem está acostumado às estradas da Bahia tende a viajar com o pé atrás.
O que encontrei no caminho desmontou completamente esse preconceito.
A BR-101 na Paraíba, em Pernambuco, Alagoas e Sergipe está em excelente estado de conservação.

Percorri cerca de 700 quilômetros entre João Pessoa e Aracaju por uma rodovia praticamente toda duplicada, com sinalização horizontal e vertical impecável, sem vegetação encobrindo placas, com guard rails nos pontos críticos.
Um detalhe chamou atenção: não vi um único veículo quebrado no acostamento. Nenhum pneu furado. Nenhuma cena de risco.
Em Alagoas e Sergipe, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) atua com várias frentes de obras simultâneas, avançando na duplicação dos últimos trechos da 101.
Vi máquinas e dezenas de homens trabalhando entre Rio Largo e São Miguel dos Campos, em Alagoas, e nas regiões de Propriá, Laranjeiras e Pedra Branca, em Sergipe.
Tudo isso em uma rodovia com tráfego pesado, especialmente de caminhões carregados de cana-de-açúcar e combustíveis. Ainda assim, o asfalto está lá: sem buracos, remendos, ondulações ou desníveis. O fluxo segue contínuo, sem engarrafamentos, sem sustos.
Outro ponto relevante: não há uma única praça de pedágio nesse trecho.
Não foi preciso concessão privada para garantir qualidade. As obras são públicas.

E então vem a pergunta inevitável: e a Bahia?
A sensação é de abandono histórico.
A Bahia tem a segunda maior malha de rodovias federais do Brasil, atrás apenas de Minas Gerais. Ainda assim, ostenta algumas das piores condições do país.
Aqui no estado, a BR-101 estende-se da divisa com Sergipe até a divisa com o Espírito Santo. São quase 1.000 quilômetros de extensão. Desse total, menos 10% estão duplicados.
O trecho entre Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus, é um retrato do descaso: tráfego intenso, alto risco e nenhuma duplicação à vista.
No Extremo Sul, o cenário se repete. Estive lá no ano passado, visitando projetos industriais da Suzano e da Veracel, e vi de perto o fluxo pesado de caminhões entre Eunápolis, Teixeira de Freitas, Porto Seguro e Mucuri, circulando sobre um asfalto ruim, com sinalização precária.
O contraste fica ainda mais gritante quando se cruza a divisa com o Espírito Santo.
De repente, a estrada muda. Duplicada, bem sinalizada, segura. Há pedágio, é verdade, mas o motorista enxerga o retorno. Na Bahia, nem isso.
A experiência recente da BR-324, sob a concessão da ViaBahia, foi um capítulo à parte de frustração, absurdos e abusos: mais de uma década de serviços ruins, prejuízos ao setor produtivo e uma saída que custou caro aos cofres públicos: quase R$1 bilhão pagos à concessionária.
Desde então, o Dnit assumiu o trecho, mas o que se vê é um trabalho precário.
Tapa-buracos malfeitos, congestionamentos diários, aumento do risco e da insegurança. Muitos acidentes, pneus furados, caminhões tombados. A principal porta de entrada rodoviária de Salvador virou um gargalo permanente.
É claro que existem limitações orçamentárias, entraves burocráticos e desafios técnicos.
Mas eles não explicam por que a BR-101 e tantas outras rodovias federais funcionam bem em estados vizinhos e tão mal dentro da Bahia. Nem por que o Dnit é ativo lá e inerte aqui.
Pagamos menos impostos? Nossas vidas valem menos?
A precariedade da infraestrutura rodoviária baiana encarece o transporte de mercadorias, eleva custos logísticos, reduz competitividade, afasta empresas e aumenta o risco de acidentes, um problema direto para a indústria, o comércio, o agronegócio e para quem vive e produz no estado.
A pergunta que fica é: no caso da BR-324, por exemplo, os baianos terão de esperar mais uma concessão – e mais uma década – para voltar a trafegar com dignidade?
Está mais do que na hora de o governo estadual, prefeitos e o setor produtivo tirarem o tema do acostamento e colocarem, de vez, no centro do debate.
O que a BR-101 me contou sobre a Bahia?
Que rodovias falam – e às vezes gritam – sobre desenvolvimento, competitividade e descaso.
O que você pensa sobre isso? Viaja pelas estradas baianas? Tem experiência diferente? Deixe seu comentário ou mande um email: redacao@industrianews.com.br.
R$ 400 milhões
Este é o valor que o governo federal está aplicando nas obras de duplicação da BR-101 em Sergipe e Alagoas. A 101 corta todo o litoral brasileiro com mais de 4,3 mil quilômetros de extensão, sendo 949 Km na Bahia. É a segunda rodovia mais extensa do país, conectando as regiões Sul, Sudeste e Nordeste

Por que João Pessoa virou destino e investimento
E por falar em João Pessoa, a capital paraibana vive um verão fora da curva.
A sensação é de que o Brasil inteiro decidiu redescobrir a cidade. Hotéis cheios, praias movimentadas e restaurantes disputados ajudam a explicar por que João Pessoa entrou, de vez, no radar do turismo nacional.
A cidade encanta pela combinação rara de atributos urbanos: avenidas largas, trânsito que flui, orla plana e preservada, ciclovias bem sinalizadas e uma perceptível sensação de segurança.
Some-se a isso uma oferta gastronômica qualificada e preços mais acessíveis do que os praticados em capitais maiores do Nordeste, como Salvador.
O resultado é uma experiência turística competitiva – e isso faz toda a diferença.
Os atrativos ajudam, claro. As piscinas naturais de Picãozinho oferecem um mergulho em águas rasas entre corais.
Pertinho da capital, na vizinha Cabedelo, tem o pôr do sol na Praia do Jacaré virou um ritual que mistura natureza e cultura, com o Bolero de Ravel ecoando ao som do saxofone enquanto o sol se despede do Rio Paraíba.
Mas João Pessoa não cresce apenas como destino turístico.
A cidade se consolida como ativo imobiliário.
O que se vê é um volume inédito de canteiros de obras espalhados por diversos bairros, no maior boom imobiliário de sua história.
A chegada de novos moradores, investidores e compradores de segunda residência reforça esse movimento.
Há, porém, um diferencial importante: a legislação urbanística que protege a orla de Tambaú e Cabo Branco, proibindo arranha-céus à beira-mar.
A regra garante ventilação natural, sol na areia e uma paisagem menos verticalizada – um ativo urbano que valoriza o território no longo prazo e evita erros cometidos por outras capitais litorâneas.
João Pessoa mostra que crescimento não precisa ser sinônimo de desordem.
Quando planejamento urbano, turismo e mercado imobiliário caminham juntos, a cidade deixa de ser apenas cenário e passa a ser estratégia.
Radar da Indústria é uma coluna semanal sobre os movimentos que moldam a indústria e a economia da Bahia. Aqui, investimentos, negócios, energia, infraestrutura e política econômica são analisados sem maquiagem. O foco está no que muda o jogo – e no que trava o desenvolvimento. Com informação, bastidor e leitura crítica, o Radar aponta riscos, oportunidades e contradições. Porque entender a indústria é entender o futuro do estado.
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