
A semana de 19 a 23 de janeiro expôs duas fragilidades críticas do setor industrial: a Anfavea intensificou pressão contra renovação da isenção fiscal que beneficia a BYD, ameaçando a operação de Camaçari, enquanto dados inéditos da CNI revelam que 31% das empresas usam crédito de longo prazo para capital de giro – sinal de que o setor luta pela sobrevivência em meio a juros elevados, não para expansão.
INDICADOR EM DESTAQUE
Crédito de longo prazo para capital de giro
Dados inéditos da Sondagem Especial nº 98 da CNI revelam uma distorção preocupante: entre fevereiro e julho de 2025, 31% das empresas industriais que buscaram crédito de longo prazo (acima de cinco anos) o fizeram para honrar despesas correntes como folha de pagamento e impostos – finalidade que normalmente seria atendida por linhas de curto prazo.
O que significa? O uso de crédito de longo prazo para necessidades imediatas indica que o setor está mais focado em sobreviver do que em investir. Segundo Maria Virgínia Colusso, analista da CNI, o movimento mostra que o crédito de curto prazo está muito caro e as condições – como exigência de garantias – muito desfavoráveis.
É um sintoma claro de estrangulamento financeiro: empresas recorrem a financiamentos estruturais para pagar contas do dia a dia. Para a Bahia, onde o setor petroquímico já enfrenta crise estrutural e novos investimentos como BYD dependem de fluxo de caixa robusto, o cenário de crédito torna a expansão industrial ainda mais desafiadora.
O dado expõe que parte do setor industrial está mais focada em sobreviver do que em investir. Segundo Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI, o movimento indica que o crédito de curto prazo está muito caro e as condições — como exigência de garantias — muito desfavoráveis. É sintoma grave: empresas sacrificam planejamento de longo prazo para atender necessidades imediatas, comprometendo capacidade futura de crescimento.
PRINCIPAIS NOTÍCIAS DA SEMANA
Anfavea acirra pressão contra renovação de isenção fiscal

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) intensificou campanha para que o governo federal não renove a isenção do Imposto de Importação sobre kits de veículos desmontados (CKD e SKD), que vence em 31 de janeiro.
Em manifesto divulgado na segunda-feira (19), a entidade afirma que a ampliação da produção em CKD/SKD pode eliminar 69 mil empregos diretos, afetar 227 mil postos indiretos e gerar perda econômica de R$ 103 bilhões para fabricantes de autopeças. O Ministério do Desenvolvimento informou que não há pedido de renovação até o momento.
Por que isso importa? A decisão impacta diretamente a BYD em Camaçari, que opera no modelo SKD desde a inauguração em outubro de 2025. Sem renovação da isenção, a alíquota de 35% será aplicada integralmente a partir de julho de 2026 – dois anos antes do previsto originalmente. Para a Bahia, representa ameaça concreta: a fábrica produziu 20 mil veículos em 60 dias utilizando kits importados com isenção de US$463 milhões (R$2,6 bilhões).
A nacionalização completa da cadeia exige investimentos de longo prazo e fornecedores locais qualificados – processo que pode levar anos. Se a BYD reduzir produção ou atrasar expansão, os 10 mil empregos prometidos ficam em risco, fragilizando o principal projeto de reindustrialização do estado. A disputa também expõe fragilidade: montadoras tradicionais (VW, GM, Stellantis, Toyota) acusam a chinesa de concorrência desleal; a BYD responde chamando-as de “dinossauros obsoletos”. O tom beligerante indica que a guerra comercial está apenas começando.
Transação bilionária transfere minas de ouro
A canadense Equinox Gold fechou acordo para vender suas operações de Santa Luz (Santaluz) e Fazenda Brasileiro (Barrocas) para a chinesa CMOC por US$900 milhões à vista, com bônus de até US$115 milhões vinculado à produtividade. A conclusão está prevista para o 1º trimestre de 2026, pendente de aprovação do CADE.
Por que isso importa? O Complexo Bahia produz cerca de 100 mil onças de ouro por ano e representa posição estratégica no setor mineral baiano – o quarto maior arrecadador nacional de CFEM. A entrada da CMOC, gigante chinesa com experiência em cobre e nióbio no Brasil, pode trazer novos investimentos em tecnologia e expansão subterrânea.
Para Santaluz e Barrocas, municípios do semiárido com poucas alternativas econômicas, a continuidade operacional é vital: a mineração paga salários 2,5 vezes superiores à média local e gerou expectativa de R$101 milhões em royalties ao longo da vida útil das minas.
A transação também consolida presença chinesa em setores estratégicos baianos– primeiro com BYD na indústria automotiva, agora na mineração. O movimento reforça atração de capital asiático para a Bahia, mas exige governança robusta para evitar impactos socioambientais e garantir agregação de valor local.
AGENDA DA SEMANA
26/1 – (segunda-feira) – A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulga, nesta segunda-feira (26), às 14h, a Sondagem Industrial. O levantamento mostra a percepção dos empresários sobre o desempenho das indústrias extrativa e de transformação em dezembro do ano passado, bem como a expectativa dos industriais para os próximos meses.
27/1 (terça-feira) – O IBGE divulga o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de janeiro.
28/1 (quarta-feira) – A CNI divulga a Sondagem Indústria da Construção de dezembro. A pesquisa monitora o desempenho da atividade, a confiança dos empresários e a evolução futura do setor. O levantamento é feito em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
29/1 (quinta-feira) – A CNI divulga o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) Setorial de janeiro. A pesquisa mede o nível de confiança dos empresários de cada um dos 29 setores da indústria, de acordo com o porte das empresas e a localização geográfica.
30/1 (sexta-feira) – IBGE divulga a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNADC) de dezembro.
NÚMERO DA SEMANA
31 de janeiro é a data-limite para decisão do governo federal sobre renovação da isenção fiscal de importação de kits CKD/SKD de veículos eletrificados. Sem prorrogação, BYD e outras montadoras enfrentam alíquota de 35% já em julho/2026, ameaçando viabilidade das operações em Camaçari.
CONDIÇÕES DE CRÉDITO E INDICADORES INDUSTRIAIS
| Indicador | Valor/Percentual | Observação |
|---|---|---|
| Crédito de longo prazo usado para capital de giro | 31% | Entre fev-jul/2025 (CNI) |
| Empresas que desistiram de crédito após alta do IOF | 16% | + 16% reduziram valor solicitado |
| Principal demanda das empresas para melhorar acesso | 49% | Redução de custos tributários/administrativos |
| Crédito de curto prazo usado para capital de giro | 59% | Percentual ainda elevado |
| Perda estimada com produção CKD/SKD (Anfavea) | R$ 103 bi | Cenário de manutenção de isenções |
| Empregos em risco (Anfavea) | 69 mil diretos | + 227 mil indiretos |
| Participação da Bahia no PIB do Nordeste | 29% | Líder regional |
| Participação da Bahia no VTI do Nordeste | 33,4% | Principal polo industrial |
| Exportações industriais BA (% Nordeste) | 45,2% | Dados 1º sem/2025 |
Fonte: CNI (Sondagem Especial nº 98), Anfavea, FIEB, elaboração própria.
A coluna Indústria em Foco é publicada às segundas-feiras. Análise elaborada pela equipe Indústria News.
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