
Nas profundezas da rocha, o som não é o do mar, mas um zumbido grave e constante que reverbera no peito. Estamos a dezenas de metros abaixo do nível do solo, em uma catedral de concreto e aço escavada na pedra. Ali, onde o Rio São Francisco é domado para iluminar parte de um país, o turismo deixa de ser contemplativo para se tornar industrial.
O destino em contexto
Localizada no norte da Bahia, na divisa com Alagoas e Sergipe, Paulo Afonso carrega o título de “Capital da Energia do Nordeste”. Não é marketing vazio. O complexo hidrelétrico local reúne cinco usinas e mais de 4 mil MW de capacidade instalada – um ativo que ajudou a sustentar a industrialização da região ao longo do século XX.
O projeto começou em 1948, sob a liderança da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), e transformou o Rio São Francisco em vetor de desenvolvimento. Décadas depois, o ativo passou a ser operado pela Axia Energia, que agora tenta dar uma nova camada de valor ao complexo: o turismo industrial.
Segundo dados da própria empresa, quase 19 mil visitantes passaram pelo roteiro guiado em 2025. Pode parecer pouco diante de destinos consolidados. Mas, para um produto turístico baseado em turbinas, túneis e infraestrutura pesada, é um número que chama atenção.
Por que isso funciona
O segredo aqui não está na paisagem – embora ela ajude. Está na narrativa. Paulo Afonso oferece algo raro no turismo brasileiro: a chance de entender como o país funciona por dentro. O roteiro passa por estruturas subterrâneas, mirantes e pontos históricos que conectam engenharia, política energética e ocupação territorial. Não é só bonito. É didático.
Esse tipo de turismo, chamado de turismo técnico ou industrial, cresce no mundo. Usinas, vinícolas, fábricas e até portos passaram a abrir suas portas como estratégia de diversificação de receita e fortalecimento de marca.
No caso da Axia, há um movimento claro: transformar um ativo de infraestrutura em ativo de experiência. Guias credenciados, roteiros organizados e controle de acesso mostram que não se trata de visita improvisada. Há método.
E há demanda. Especialmente em períodos de férias, quando o fluxo mensal chega a cerca de 2 mil pessoas.
Construído a partir de 1948, o Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, reúne cinco usinas (Paulo Afonso I, II, III, IV e Apolônio Sales/Moxotó), que somam mais de 4 mil MW de potência instalada
O Lado B: o que ainda trava
Mas Paulo Afonso ainda não virou um destino turístico completo. Virou um ponto de visita. E isso faz diferença.
A cidade carrega uma dependência histórica do setor elétrico. Durante décadas, a economia girou em torno da operação das usinas e da presença da Chesf. Quando esse ciclo perdeu força, ficou o desafio: como transformar infraestrutura em desenvolvimento sustentável?
O turismo aparece como alternativa, mas ainda é fragmentado.
Faltam alguns elos básicos:
- Rede hoteleira mais robusta para reter visitantes por mais de um dia
- Integração com outros atrativos da região, como cânions e rotas do Rio São Francisco
- Conectividade e acesso. Chegar até Paulo Afonso ainda exige planejamento
- Experiência ampliada. O passeio no complexo é forte, mas o entorno ainda entrega pouco no pós-visita
Além disso, há um desafio clássico do turismo industrial: ele encanta, mas precisa se renovar. Não basta mostrar turbinas. É preciso contar histórias, criar experiências imersivas, investir em tecnologia e interatividade.
O que o turista – e o empresário – leva dessa história
Paulo Afonso ensina uma lição direta: turismo não é vocação. É construção. A cidade não tinha praias, nem resorts, nem tradição turística. Tinha um ativo – energia – e decidiu transformá-lo em experiência. Isso abre uma avenida de oportunidades para destinos que, à primeira vista, não são “turísticos”.
Mais: ensina que infraestrutura é produto. Se você gerencia uma indústria, uma fazenda tecnológica ou uma operação logística, há ali um potencial turístico latente. O viajante moderno, especialmente o de negócios e o educacional, quer ver o “como se faz”.
Para empresários, o recado é ainda mais claro:
- Infraestrutura pode virar produto
- História bem contada gera valor
- Parcerias público-privadas são decisivas
- Turismo não vive sozinho — precisa de ecossistema
O movimento da Axia Energia aponta um caminho: usar ativos existentes para criar novas fontes de receita e reposicionar territórios. Mas o salto real só acontece quando a cidade acompanha.
Paulo Afonso é um caso de manual sobre uma armadilha comum no turismo brasileiro: destinos com infraestrutura de grande porte que demoram a transformar esse patrimônio em economia viva para quem mora ali.
O complexo hidrelétrico existe há 77 anos. O turismo organizado ali ainda engatinha. A cachoeira que fez o Nordeste ter luz hoje só aparece quando as comportas permitem. E o Rio São Francisco – o Velho Chico que deu sentido a tudo isso – perdeu metade da sua superfície de água natural nos últimos 30 anos, segundo estudo do MapBiomas.
A cidade que acendeu o Nordeste precisa agora acender sua própria chama econômica. Os ingredientes existem: história, engenharia, natureza, posição geográfica privilegiada na divisa entre quatro estados. O que falta não é potencial. É o movimento que transforma potencial em destino.
E para isso, às vezes, não basta abrir as comportas. É preciso, antes, saber que elas existem.
O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
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