A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) deu um passo decisivo na modernização do setor elétrico ao autorizar, na última quinta-feira (2), o primeiro Sistema de Armazenamento de Energia (SAE) colocalizado a uma usina de geração no país. O projeto será implantado na Usina Fotovoltaica Sol de Brotas 7, da Statkraft, localizada no município de Uibaí, na Bahia. Na prática, trata-se de um sistema de baterias instalado junto à usina solar, compartilhando a mesma infraestrutura de conexão à rede – um modelo que começa a ganhar tração no mundo e agora entra no radar regulatório brasileiro.
A lógica é simples, mas estratégica: armazenar energia quando há sobra de geração e liberar quando o sistema mais precisa. Segundo o diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, a iniciativa antecipa um desafio que já está contratado no horizonte do setor elétrico.
“As baterias vêm como solução de médio e curto prazo para um problema que irá se acentuar com o tempo”, afirmou. “A expansão já sinaliza o crescimento de renováveis de forma muito vigorosa no Brasil, e precisamos de um arcabouço regulatório que dê segurança aos investidores e permita o desenvolvimento de uma cadeia de suprimento.”
O sistema autorizado terá capacidade de 5.016 kWh e potência instalada de 1.250 kW, utilizando baterias de íon-lítio. Integrado fisicamente à usina, poderá armazenar energia tanto da própria geração quanto da rede, operando com os mesmos sistemas de medição e faturamento do empreendimento solar.
Para a superintendente da Aneel, Ludimila Lima da Silva, o movimento marca uma inflexão regulatória relevante. “É um marco da integração entre geração e armazenamento de energia, contribuindo para a modernização do setor e o aprimoramento do arcabouço regulatório”, destacou.
A autorização é resultado de um processo que vem sendo construído desde 2022, com consultas públicas, projetos-piloto e iniciativas de pesquisa e desenvolvimento. Em 2025, a agência consolidou diretrizes específicas para sistemas colocalizados, criando as bases para esse tipo de operação no país.
Como funciona o sistema de armazenamento
Por meio da utilização da tecnologia de baterias de íon-lítio, o SAE colocalizado na UFV Sol de Brotas 7 será composto por uma unidade armazenadora, com capacidade nominal de 5.016 kWh e potência instalada total de 1.250 kW. O sistema de conversão tem capacidade de 2.300 kW e tensão de saída do inversor de 0,60 kV, quando fisicamente integrado às instalações da usina fotovoltaica.
A UFV Sol de Brotas 7 faz parte de um complexo de usinas associadas, o SAE poderá consumir energia tanto da própria UFV Sol de Brotas 7 quanto da rede à qual estiver conectado, sendo vedado o consumo por ligação direta com outras centrais geradoras do complexo. O sistema de armazenamento vai operar compartilhando os sistemas de medição e faturamento da usina, nos termos aplicáveis aos sistemas de armazenamento colocalizados.
Por que isso importa (de verdade)
No papel, é “só” uma autorização. Na prática, é um sinal claro de mudança estrutural no setor elétrico brasileiro – e a Bahia está no centro desse movimento.
1 – O gargalo das renováveis começa a ser atacado
Solar e eólica crescem rápido, mas com um problema conhecido: geram quando o sistema nem sempre precisa. Resultado? Curtailment (desperdício de energia) e pressão sobre preços.
O armazenamento muda essa lógica. Permite guardar energia no pico de geração e vender no pico de demanda. Traduzindo: mais eficiência e melhor monetização dos ativos.
2 – Segurança energética deixa de ser discurso
Com mais fontes intermitentes na matriz, o sistema precisa de flexibilidade. As baterias entram como resposta imediata – muito mais rápida que térmicas ou grandes obras de transmissão.
É exatamente esse o ponto levantado pela Aneel: o problema ainda é controlado, mas tende a crescer. O regulador decidiu não esperar.
3 – Bahia se posiciona na fronteira tecnológica
O projeto em Uibaí não é trivial. Ele coloca o estado, já líder em geração renovável, também como laboratório de soluções avançadas para integração energética.
Não é só gerar energia limpa. É saber gerir essa energia. E isso vale dinheiro.
4 – Recado direto ao mercado: o jogo vai abrir
Ao tratar o armazenamento colocalizado como uma “alteração técnica” de usinas já existentes, a Aneel simplifica o caminho regulatório. Na prática, reduz risco e acelera decisões de investimento.
O recado é claro: há espaço para novos modelos de negócio – e eles começam agora.
5 – Cadeia produtiva à vista (ou oportunidade perdida)
O próprio regulador menciona a necessidade de desenvolver uma cadeia de suprimentos. Isso inclui desde baterias até serviços técnicos e engenharia especializada.
A pergunta que fica: o Brasil – e a Bahia – vão capturar essa oportunidade ou apenas importar tecnologia?
Em resumo:
A autorização inaugura uma nova fase do setor elétrico. Menos sobre gerar mais energia. Mais sobre usar melhor a energia que já existe. E, dessa vez, a Bahia não está correndo atrás. Está puxando a fila.
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