
A Paranapanema encerrou nesta quarta-feira (30) um dos capítulos mais difíceis de sua história financeira. A companhia informou aio mercado, através de fato relevante, que concluiu integralmente a transação negociada com os credores do Acordo Global e liquidou uma dívida histórica de R$4,27 bilhões, apurada em janeiro deste ano. Do total, aproximadamente R$3,94 bilhões foram extintos, o equivalente a 92,3% do passivo, em uma operação que exigiu R$ 100 milhões em novos recursos.
O acordo também devolve à companhia a plena disponibilidade de seus ativos operacionais e não operacionais. Os R$327,4 milhões restantes serão pagos ao longo de até 36 meses exclusivamente com recursos obtidos da monetização de nove direitos creditórios judiciais da Paranapanema e de sua controlada CDPC. Ao final desse prazo, mesmo que os créditos não tenham sido integralmente realizados, a dívida remanescente será extinta.
O movimento encerra uma trajetória de quase uma década de endividamento. O Acordo Global com os principais credores havia sido firmado em 2017, com pagamentos previstos até 2028. A deterioração da liquidez levou a companhia a deixar de pagar as parcelas semestrais a partir de dezembro de 2022 e a pedir recuperação judicial naquele mesmo ano. Em 2024, a dívida foi antecipadamente vencida e, em 2025, a Cargill chegou a ajuizar ação para executar as garantias.
A reestruturação ganhou escala em 2026. A Paranapanema negociou simultaneamente com 11 credores nacionais e internacionais e, somando o acordo concluído agora a outras operações com Fundo BS, AXIA Energia e Banrisul, afirma ter liquidado mais de R$5,1 bilhões em passivos ao longo do ano.
O próximo desafio está na fábrica
O alívio financeiro, porém, não significa que a recuperação industrial esteja concluída. E, para a Bahia, o principal ponto dessa equação está em Dias d’Ávila, onde funciona a Caraíba Metais, unidade responsável pela fundição e pelo refino de cobre primário da Paranapanema.
A unidade praticamente paralisou suas atividades em outubro de 2023, quando a companhia anunciou uma parada de manutenção. Houve uma retomada parcial em meados de 2024, mas parte da estrutura continua inativa. É justamente nessa planta que está concentrada uma das questões mais importantes da nova fase da Paranapanema: quanto do alívio financeiro poderá ser convertido em recuperação da capacidade produtiva.
A Caraíba tem papel estratégico porque é a unidade que transforma o cobre mineral em metal dentro da estrutura da companhia. A Paranapanema se apresenta como a única empresa no país com ativos de refino primário e transformação de cobre, formando uma cadeia que vai da fundição e do refino à produção de vergalhões, fios, laminados, barras, tubos e conexões.
Eluma
Enquanto a unidade baiana enfrenta o desafio da retomada, a Eluma, base operacional e geradora de receita da companhia, vem sustentando a atividade industrial. Em suas unidades de Serra (ES) e Santo André (SP), são produzidos semielaborados de cobre e suas ligas destinados a setores como energia, construção civil, refrigeração e indústria automotiva.
Os números do segundo trimestre mostram uma melhora operacional. A receita líquida chegou a R$169,2 milhões, alta de 18,6% sobre o mesmo período de 2025, enquanto o lucro bruto ajustado pela ociosidade alcançou R$30 milhões, avanço de 96%. O Ebit foi positivo em R$47,2 milhões, o primeiro resultado operacional positivo em cinco anos. A companhia também registrou Ebitda de R$68,9 milhões.
Há, porém, uma ressalva importante: parte desse resultado foi influenciada pela reversão não recorrente de uma provisão para contingência de R$ 100,5 milhões. Ou seja, a melhora operacional precisa ser acompanhada nos próximos trimestres para mostrar quanto dela é estrutural.
Da sobrevivência financeira à recuperação industrial
A conclusão da transação muda significativamente a posição financeira da Paranapanema. A companhia vinha operando com patrimônio líquido negativo de R$7,5 bilhões no fim de 2025, ativos essenciais onerados e severas restrições de liquidez. Agora, com a maior parte da dívida extinta e os ativos liberados das principais restrições relacionadas ao Acordo Global, abre-se espaço para uma nova etapa da recuperação.
Mas o desafio muda de natureza. Durante anos, a prioridade foi evitar que o endividamento sufocasse a empresa. Agora, a questão passa a ser como transformar a desalavancagem em capacidade produtiva, geração de caixa e investimentos.
O cobre ganhou importância estratégica com a eletrificação da economia, a expansão das energias renováveis, a infraestrutura elétrica e o crescimento dos data centers. Nesse cenário, uma eventual recuperação mais ampla da Caraíba Metais interessa não apenas à Paranapanema, mas também à cadeia industrial baiana.
A recuperação judicial, contudo, continua em curso, e a própria companhia reconhece que ainda existem desafios para o equacionamento integral de sua estrutura de capital. A dívida histórica avançou para uma solução definitiva. O próximo teste será industrial: recuperar plenamente os ativos, ampliar a produção e mostrar que a nova estrutura financeira é capaz de sustentar uma Paranapanema menos endividada e mais produtiva.
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