
“A vantagem competitiva é construída.” A frase do presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), André Passos Cordeiro, resume o desafio que a indústria brasileira enfrenta para voltar a crescer. Em um mercado cada vez mais disputado, o Brasil convive com concorrentes que têm gás, energia e capital mais baratos enquanto metade do consumo nacional de produtos químicos já é atendida por importações.
Em entrevista exclusiva ao Indústria News, André Cordeiro afirma que a pressão sobre o setor não é apenas consequência da conjuntura internacional. A desaceleração chinesa, o avanço da produção americana baseada no gás de xisto e a reorganização das cadeias globais de comércio se combinaram a problemas domésticos, como o alto custo do gás natural, da energia e dos investimentos.

Pergunta – A indústria química brasileira enfrenta uma onda de produtos importados, especialmente da Ásia, ao mesmo tempo em que convive com custos elevados no mercado interno. O que é conjuntural e o que já representa uma mudança estrutural na indústria mundial?
André Passos Cordeiro – A gente tem uma situação dentro da outra. Existe uma mudança estrutural que vem desde o início do século XXI nas cadeias industriais em geral e, especialmente, na indústria de base. A entrada muito forte da China na manufatura mundial é uma dessas mudanças. No caso da indústria química, houve também o desenvolvimento do shale gas (ou gás de folhelho, frequentemente chamado de gás de xisto) nos Estados Unidos, que reduziu muito o custo de produção de produtos petroquímicos naquele país.
Como a indústria química é muito globalizada e trabalha com produtos que, em grande parte, são commodities, os preços são formados internacionalmente. O Brasil é um tomador de preços. Então, quando um produtor americano passa a ter acesso a uma matéria-prima muito mais barata, isso muda a condição de competição de toda a cadeia.
O Brasil pode transformar sua matriz renovável em uma vantagem competitiva industrial
Há também uma questão conjuntural importante. Durante muitos anos, o crescimento chinês, especialmente o mercado imobiliário, absorveu grandes volumes de produtos químicos. Quando esse crescimento desacelerou, surgiu uma capacidade de produção excedente. Ao mesmo tempo, a guerra comercial entre Estados Unidos e China alterou os fluxos de comércio.
Um exemplo são as resinas produzidas nos Estados Unidos. Antes, uma parcela importante era absorvida pelo mercado chinês. Com a desaceleração chinesa, esses volumes passaram a procurar outros destinos, inclusive a América Latina. O resultado é uma pressão muito forte sobre a indústria brasileira. Portanto, temos uma conjuntura que agrava uma mudança estrutural que já estava acontecendo.
Pergunta – O Brasil consegue competir com países que produzem com gás, energia e capital mais baratos? Onde está a vantagem competitiva que o país ainda pode construir?
André Passos Cordeiro: Hoje, em muitos segmentos, não consegue competir em igualdade de condições. Mas nenhum país tem todas as vantagens. Os Estados Unidos, por exemplo, têm uma vantagem enorme na química por causa da matéria-prima barata. O gás natural custa cerca de US$ 3 por milhão de BTU lá, enquanto no Brasil chega perto de US$ 20, entregue na porta da fábrica.
A China tem outra vantagem: o custo de capital é muito menor. Então a questão é entender que a indústria não é uma atividade extrativa. A vantagem competitiva é construída. Se você tem uma desvantagem em matéria-prima, pode construir uma vantagem em custo de capital, em regulação, em infraestrutura ou em sustentabilidade.
O Brasil tem uma matriz energética muito competitiva e sustentável. Temos também recursos naturais, gás do pré-sal, biomassa, etanol e óleos vegetais. O problema é que ainda não conseguimos transformar essas vantagens potenciais em vantagem efetiva para quem produz.
Passamos quase 20 anos desde a descoberta do pré-sal e ainda não conseguimos transformar essa riqueza em agregação de valor industrial na dimensão necessária. Também não estruturamos adequadamente ferrovias, hidrovias e integração com o transporte rodoviário. Estamos perdendo espaço porque não fizemos boa parte desse dever de casa.
Pergunta – A energia aparece como um dos principais gargalos. O que precisa mudar para que a matriz renovável brasileira deixe de ser apenas uma vantagem ambiental e passe a ser também uma vantagem industrial?
André Passos Cordeiro – O Brasil talvez tenha uma das matrizes energéticas mais sustentáveis do planeta, e o custo de geração dessa energia é baixo. O problema está nos custos acessórios e na forma como o sistema foi estruturado.
Temos encargos sobre a tarifa e problemas como o curtailment, que ocorre quando não conseguimos aproveitar toda a energia disponível. Durante o dia, temos um grande suprimento de energia solar e, em determinados momentos, uma demanda menor. À noite, quando a demanda aumenta, não temos essa mesma fonte solar disponível.
A indústria química brasileira precisa atuar em três frentes ao mesmo tempo: reduzir seus custos, construir novas vantagens competitivas e proteger o mercado de práticas comerciais que distorçam a concorrência
Isso exige um sistema capaz de combinar melhor as diferentes fontes e os diferentes horários de consumo. O consumidor industrial acaba pagando por essas ineficiências.
É uma questão de planejamento energético, mas também de regulação. O Brasil pode transformar sua matriz renovável em uma vantagem competitiva industrial, desde que consiga resolver esses problemas e fazer com que a energia barata de produzir seja também competitiva para quem consome.
Pergunta – O governo tem anunciado medidas para reduzir o preço do gás natural, inclusive com a perspectiva de uma redução expressiva. O que a indústria química espera do novo desenho do mercado?
André Passos Cordeiro – A Abiquim foi uma das entidades que apoiaram e ajudaram a induzir a criação do programa Gás para Empregar. Continuamos acreditando que ele pode produzir resultados importantes, inclusive com o leilão de gás da União.
Mas é preciso olhar para as regras. Um leilão de gás destinado à indústria pode ser uma política pública capaz de estimular o desenvolvimento industrial, mas precisamos saber como ele será estruturado e a que preço esse gás chegará ao consumidor.
Hoje temos um mercado em que os preços refletem um grau de concentração no suprimento, no transporte e na distribuição que não deveria estar presente em uma política industrial e energética voltada para a indústria.
Nossa expectativa é que o leilão consiga proporcionar preços abaixo dos praticados atualmente. Para a indústria química, o gás não é apenas uma fonte de energia. É também matéria-prima. Por isso defendemos que ele seja direcionado prioritariamente para a produção de bens, como fertilizantes, metanol e uma ampla gama de produtos químicos. Também é importante separar as frações líquidas do gás natural, como o etano, que são fundamentais para a produção petroquímica.
Pergunta – Se o senhor pudesse definir uma agenda imediata para recolocar a indústria química brasileira em um ciclo sustentável de crescimento, quais seriam as prioridades?
André Passos Cordeiro – A primeira prioridade é reduzir o custo da energia elétrica de fontes renováveis e corrigir as falhas regulatórias na geração, transmissão e distribuição. A segunda é reduzir o preço do gás natural. Nós trabalhamos com uma referência de algo entre US$5 e US$6 por milhão de BTU, no máximo o dobro do preço americano.
A terceira é mudar a forma como utilizamos o gás natural, priorizando seu uso como matéria-prima industrial e destinando as frações líquidas para a indústria petroquímica.
Mas há outras frentes. Precisamos construir um modelo regulatório que incentive o uso de matérias-primas renováveis – etanol, biomassa, óleos vegetais – na fabricação de produtos químicos. O Brasil tem condições para fazer isso, mas precisa combinar regulação, crédito e mercado.
Também precisamos reduzir o custo de investimento. O custo de capital e de implantação de uma indústria no Brasil é muito superior ao chinês. É necessário estruturar linhas de crédito para cadeias produtivas longas, envolvendo primeira, segunda e terceira gerações da indústria química.
E precisamos continuar utilizando instrumentos de defesa comercial contra práticas de dumping e preços predatórios. A indústria química brasileira precisa atuar em três frentes ao mesmo tempo: reduzir seus custos, construir novas vantagens competitivas e proteger o mercado de práticas comerciais que distorçam a concorrência.
POR TRÁS DAS RESPOSTAS
Economista, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorando em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional pela Universidade de Brasília (UnB), André Passos Cordeiro acumula mais de 25 anos de experiência em assuntos governamentais, com uma trajetória que combina gestão pública e indústria petroquímica. Entre 1994 e 2005, atuou no setor público, em diferentes níveis de governo, com passagens pelo Ministério de Minas e Energia e pela Casa Civil da Presidência da República. De 2005 a 2020, trabalhou na indústria petroquímica como responsável por Relações Governamentais da Innova S.A. Sua relação com a Abiquim começou na Comissão de Relações Governamentais da entidade, da qual participa desde sua criação e onde foi vice-coordenador em 2018. Também acompanhou a estruturação da Frente Parlamentar da Indústria Química e atuou na representação da indústria em temas de relações governamentais junto à Abiplast e à Confederação Nacional da Indústria (CNI).
5 PERGUNTAS é um conteúdo exclusivo do Indústria News. Publicada às segundas-feiras, a série entrevista empresários, executivos, pesquisadores e autoridades para discutir, em cinco perguntas, os temas que estão redesenhando a indústria brasileira. Um espaço para ouvir quem toma decisões, produz conhecimento e ajuda a construir os próximos capítulos do desenvolvimento econômico do país.
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