
A semana de 13 a 19 de setembro de 2026 jogou luz numa contradição que vem se tornando a marca deste ano para a indústria baiana: enquanto a BYD em Camaçari ultrapassa 8 mil empregos e prepara o 3º turno de produção, o indicador de confiança industrial nacional atingiu o pior nível em onze anos. O Banco Central cortou a Selic para 13,75%, mas CNI, Fieb e CBIC consideraram o movimento insuficiente. Em paralelo, o governo sancionou lei para atrair R$ 7 bilhões em minerais críticos, a Petrobras assinou contratos na Costa do Marfim e o BNDES abriu R$ 22,6 bilhões em crédito para exportadoras afetadas pelo tarifaço americano.
NOTÍCIA EM DESTAQUE
Selic cai para 13,75%, mas indústria ainda espera um ciclo mais longo de redução
O Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, no primeiro corte do ciclo. A decisão foi recebida positivamente por CNI, Fieb e CBIC, mas as entidades consideram que o custo do crédito continua elevado. A taxa média das operações com recursos livres chegou a 47,7% ao ano em julho, enquanto para empresas ficou em 25,4%. Na indústria, o cenário é agravado pela confiança baixa e pela estagnação da transformação.
Por que isso importa: Uma Selic de 13,75% ao ano ainda é juro restritivo. O que muda com o corte é a direção, não o nível. Para a indústria baiana, o sinal de flexibilização monetária é relevante porque chega junto com outros fatores positivos – a BYD contratando, a Petrobras expandindo, o Brasil Soberano liberando crédito para exportadoras. Mas há um gap entre o sinal do BC e o custo real do dinheiro: empresas que precisam de capital de giro continuam pagando juros que inviabilizam projetos de menor rentabilidade. A pesquisa da CNI com 179 empresas mostrou que 57% esperam redução na margem líquida e 60% projetam aumento nos juros cobrados nos próximos meses. A transmissão da política monetária leva tempo. A questão que o setor quer responder agora não é “a Selic caiu?” – é “quando o crédito vai ficar acessível?”
PRINCIPAIS NOTÍCIAS
1 – BYD ultrapassa 8 mil empregos e prepara terceiro turno em Camaçari
O complexo industrial da BYD em Camaçari ultrapassou a marca de 8 mil colaboradores diretos, tornando a montadora o segundo maior empregador industrial do estado. Para viabilizar o 3º turno de produção, a empresa está contratando 1.500 profissionais adicionais para a Fábrica de Montagem Final, o Centro de Logística e o Centro de Qualidade. Das 1.500 vagas, cerca de 500 admissões já foram concluídas, com integrações realizadas em 2, 4, 9 e 14 de setembro. Somente no dia 16/9, mais 188 novos colaboradores ingressaram no complexo. A empresa abriu outras 500 vagas para as fábricas de Soldagem, Pintura e Estamparia – unidades que estão em fase final de construção.
Por que isso importa: A BYD em Camaçari deixou de ser projeto para virar motor. Com 8 mil empregos diretos e 1.500 contratações em andamento, a montadora já responde por uma parcela relevante da folha salarial industrial da Bahia. O 3º turno sinaliza que a demanda por veículos eletrificados no Brasil está crescendo mais rápido do que a capacidade instalada inicialmente prevista. Para a cadeia de fornecedores – peças, logística, serviços – esse ritmo de contratação representa demanda real. O efeito multiplicador na região metropolitana de Salvador e em Camaçari já está visível no mercado imobiliário e no comércio local.

2 – CNI e governo montam frente para ampliar exportações
Em reunião com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, a CNI formalizou uma agenda conjunta com o governo federal para elevar as exportações industriais brasileiras. O movimento veio na mesma semana em que o tarifaço americano continua como pano de fundo – e em que o Plano Brasil Soberano abriu nova rodada de crédito para exportadoras. A frente inclui simplificação de processos para habilitação ao crédito de exportação, aceleração de acordos comerciais com mercados alternativos e mapeamento de setores com maior potencial de ganho no ambiente protecionista global.
Por que isso importa: A Bahia exporta petróleo, papel e celulose, químicos e veículos eletrificados – todos dentro do radar de interesse dessa agenda. Para industriais baianos com capacidade exportadora, a combinação de frente CNI-governo com crédito disponível pelo Brasil Soberano cria uma janela. O ponto crítico é a execução: quantas empresas conseguem acessar esses mecanismos de fato?
3 – Minerais críticos entram na estratégia para atrair R$ 7 bilhões
O presidente Lula sancionou na quarta-feira (16) a lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O texto prevê até R$ 7 bilhões em incentivos a projetos de processamento e transformação de minerais, com um Fundo Garantidor da Atividade Mineral (Fgam) com aporte inicial de R$ 2 bilhões da União e capacidade de chegar a R$ 5 bilhões. O Serviço Geológico do Brasil terá orçamento ampliado de R$ 8 milhões para R$ 300 milhões para mapeamento do solo. O Brasil detém a segunda maior reserva mapeada de terras raras do mundo – cerca de 21 milhões de toneladas -, mas apenas 25% do território foi prospectado. Lula também criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos.
Por que isso importa: A Bahia possui projetos ligados a minerais estratégicos e pode se beneficiar se conseguir avançar do minério bruto para etapas de maior valor agregado. A ampliação do orçamento do Serviço Geológico pode acelerar o mapeamento de áreas baianas ainda inexploradas. Empresas com projetos em minerais para a cadeia de energia limpa e tecnologia devem monitorar o Fgam de perto – é crédito de longo prazo, que é exatamente o que o setor precisa.
4 – Petrobras amplia presença na Costa do Marfim
A Petrobras, por meio da subsidiária Petrobras Netherlands B.V. (PNBV), assinou na quinta-feira (17) em Abidjan os contratos de Partilha de Produção (PSCs) para oito blocos exploratórios offshore na Costa do Marfim — CI-513, CI-600, CI-601, CI-602, CI-603, CI-605, CI-701 e CI-702. A estatal deterá 90% de participação como operadora; os 10% restantes ficam com a Petroci Holding. A diretora executiva de E&P da Petrobras, Sylvia Anjos, representou a empresa na cerimônia. A iniciativa integra a estratégia de recomposição de reservas e diversificação exploratória prevista no Plano de Negócios da companhia.
Por que isso importa: A Petrobras é o maior cliente industrial da Bahia – de fornecedores de equipamentos a prestadores de serviços de poço. Quando ela expande portfolio exploratório para a África Ocidental, cria demanda por tecnologia e know-how que pode ser atendido por empresas do Polo de Camaçari e da cadeia de serviços de óleo e gás da Bahia. Além disso, os campos africanos têm “características geológicas semelhantes às bacias sedimentares brasileiras”, segundo a própria Petrobras, o que valoriza a experiência técnica nacional.
5 – Plano Brasil Soberano libera R$22,6 bilhões em crédito
O BNDES abriu na quinta-feira (17) o protocolo de habilitação para a 3ª fase do Plano Brasil Soberano, com R$ 22,6 bilhões disponíveis – R$ 13,5 bilhões do Tesouro e R$ 9,1 bilhões do banco de desenvolvimento. O programa atende três grupos: exportadoras afetadas pelo tarifaço americano (e seus fornecedores), setores industriais estratégicos – têxtil, químico, farmacêutico, automotivo, minerais críticos e máquinas – e exportadoras para países do Golfo Pérsico. As condições variam: juros entre 4,3% e 17,5% ao ano, conforme porte da empresa e destinação do recurso. O uso pode ser para capital de giro, compra de máquinas e projetos de investimento.
Por que isso importa: A 3ª fase do Brasil Soberano coincide com o momento em que as empresas baianas exportadoras – calçados, petroquímica, papel e celulose – precisam de fôlego para reequilibrar rotas comerciais e manter caixa. A taxa mais baixa (4,3% ao ano) para capital de giro de exportação é competitiva mesmo num ambiente de Selic alta. O gargalo costuma ser o acesso: empresas médias têm mais dificuldade para navegar no processo de habilitação.
6 – Pessimismo industrial chega a marca histórica
O ICEI recuou 1,4 ponto em setembro, saindo de 46,3 para 44,9 pontos – completando 21 meses consecutivos abaixo da linha de 50. É o maior período de pessimismo desde 2015–2016. A queda foi generalizada. O Índice de Condições Atuais cedeu 2,5 pontos, chegando a 40,2 – com a avaliação da economia brasileira despencando de 36,6 para 33 pontos. O Índice de Expectativas também recuou 0,9 ponto, a 47,2. O gerente de análise da CNI, Marcelo Azevedo, alerta que o prolongamento da falta de confiança “tende a formar posições mais firmes dos empresários com relação a contratações, investimentos e produção”.
Por que isso importa: Confiança não é apenas termômetro – ela antecede decisões. Um industrial que vê o ICEI abaixo de 50 por quase dois anos seguidos não contrata um terceiro turno, não expande linha, não abre edital de fornecimento. O que o dado de setembro revela é que o ambiente de negócios ainda não mudou suficientemente para alterar comportamento. O corte da Selic pode iniciar uma reversão, mas o mercado de crédito precisa responder na prática – e isso demora.

Super Resumo
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- BYD → prepara terceiro turno em Camaçari e prevê 1.500 novas contratações, além de outras 500 vagas nas fábricas de Soldagem, Pintura e Estamparia.
- Governo + BNDES → disponibilizam R$ 22,6 bilhões pelo Plano Brasil Soberano.
- Brasil → nova política de minerais críticos cria instrumentos para atrair até R$ 7 bilhões.
- Petrobras → assume operação de oito blocos na Costa do Marfim, com 90% de participação.
- CNI + MDIC → criam frente de cooperação para ampliar exportações e diversificar mercados.
Análise
A semana revelou com clareza a dualidade que define o Brasil industrial em 2026. De um lado, Camaçari com 8 mil empregos na BYD e mais 2 mil a caminho, a Petrobras assinando contratos na África e o governo sancionando lei para minerais críticos. De outro, o ICEI batendo o piso desde a crise de 2015, o crédito a 47,7% ao ano para o mercado livre e empresas reduzindo margens para se manter no jogo. Esses dois mundos não são contraditórios – eles coexistem. O que separa quem cresce de quem sofre é a capacidade de acessar demanda aquecida em setores específicos, crédito subsidiado onde existe e mercados externos onde ainda há espaço.
Para executivos com operações na Bahia, três movimentos da semana merecem ação imediata. O Brasil Soberano tem habilitação aberta agora – quem deixar para o mês que vem pode perder a janela ou enfrentar fila. A lei de minerais críticos cria um fundo de garantia que vai começar a operar: quem tem projetos nessa área deve procurar o Ibram e o MME para entender como se qualificar. E o ciclo de cortes da Selic, mesmo que lento, vai fazer diferença para projetos de prazo mais longo que dependam de financiamento – vale revisar modelagens feitas sob juro mais alto.
O dado do ICEI merece uma leitura cuidadosa. O pessimismo acumulado por 21 meses não é sobre o presente imediato – os números operacionais de muitos setores até melhoraram. É sobre o futuro. Empresários que não confiam no ambiente de negócios para o próximo semestre tomam posição conservadora agora: estoque mínimo, folha enxuta, capex travado. Reverter isso exige mais do que um corte de 0,25 pp. Exige a Selic em trajetória clara de queda, crédito transmitindo o efeito e inflação dentro da meta. Enquanto o tripé não se fecha, o ICEI vai oscilando perto de 45 – e o investimento privado fica represado.
Agenda da Semana
21/9 (segunda-feira)
- A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estará presente, de 21 a 24 de setembro, na Semana do Clima de Nova York (Climate Week NYC 2026), um dos principais eventos que antecedem a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), que será realizada em novembro, na Turquia.
23/9 (quarta-feira)
- O IBGE divulga a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC): Características Adicionais do Mercado de Trabalho de 2025. HÁ DADOS PARA A BAHIA
- Na quarta-feira (23), a partir de 9h, em Brasília-DF, a CNI promove o 10º Seminário Pense nas Pequenas Primeiro. Realizado em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o evento reunirá empresários, especialistas e representantes dos setores público e privado para debater os caminhos para ampliar a competitividade dos pequenos negócios. O seminário é gratuito e as inscrições estão abertas.
- Também na quarta, às 10h, a CNI apresenta a Sondagem Indústria da Construção de agosto. O levantamento acompanha mensalmente a percepção dos empresários do setor sobre nível de atividade, emprego e uso do parque fabril, além da confiança e das expectativas para o desempenho do segmento nos próximos meses.
24/9 (quinta-feira)
- O IBGE divulga a Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS) de 2025. HÁ DADOS PARA A BAHIA E SEUS MUNICÍPIOS
- O Instituto Euvaldo Lodi (IEL) divulga novas oportunidades de estágio em empresas e indústrias de diferentes regiões do país. Há vagas para estudantes dos ensinos médio, técnico e superior, em diversas áreas de atuação, com oferta de bolsa-auxílio e benefícios. Para participar, é necessário estar regularmente matriculado em uma instituição de ensino e atender aos requisitos específicos de cada vaga.
25/9 (sexta-feira)
- O IBGE divulga o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de setembro. HÁ DADOS PARA A REGIÃO METROPOLITANA DE SALVADOR
- Na sexta-feira (25), às 10h, saem os Resultados Setoriais do Índice de Confiança do Empresário Industrial. A pesquisa mostra como está a confiança de cada um dos 29 segmentos da indústria.
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