A melhora observada no primeiro semestre perdeu força e o orçamento das famílias de Salvador voltou a mostrar sinais de estresse. Em agosto, 25% das famílias da capital baiana tinham contas em atraso, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Fecomércio-BA. É o segundo mês consecutivo de alta e o maior nível desde setembro de 2025.
O percentual representa aproximadamente 255 mil famílias inadimplentes, cerca de 10 mil a mais do que em julho. O movimento interrompe uma sequência de quedas que vinha desde outubro do ano passado e indica uma reversão completa da melhora acumulada até maio.
O problema aparece também no endividamento. Em agosto, 77,4% das famílias de Salvador tinham algum tipo de dívida, o equivalente a 789 mil famílias. É o nono mês consecutivo em que o indicador permanece acima de 75%, um patamar considerado elevado dentro da série histórica.
O dado mais preocupante está entre as famílias com renda de até dez salários mínimos. Pela primeira vez na série recente, 80% desse grupo estavam endividados em agosto. A marca mostra que o crédito continua sendo utilizado por uma parcela cada vez maior das famílias para lidar com as despesas do cotidiano.
Crédito começa a revelar a pressão sobre o orçamento
A composição das dívidas ajuda a entender esse movimento. O crédito consignado chegou a 7,7%, maior percentual desde o início da série e bem acima dos 5,9% registrados em julho de 2025. O crédito pessoal também avançou, chegando a 6,6%.
O crescimento dessas modalidades, combinado à permanência do cartão de crédito como principal instrumento de financiamento das famílias, sugere uma maior dependência do crédito para equilibrar o orçamento doméstico.
O cartão aparece em 92,5% das famílias endividadas. Já o financiamento de imóveis permanece em nível baixo, embora tenha avançado de forma marginal, para 2,6%.
A diferença é importante porque mostra que o aumento do endividamento não está concentrado em operações associadas à aquisição de patrimônio. Uma parcela relevante está relacionada a instrumentos utilizados para financiar despesas correntes.
Inadimplência cresce em todas as faixas de renda
A piora não ficou restrita às famílias de menor renda. Entre aquelas com renda de até dez salários mínimos, a parcela com contas em atraso passou de 26,1% para 27% em agosto. O comprometimento médio da renda com dívidas chegou a 32,9%.
Entre as famílias com renda superior a dez salários mínimos, a inadimplência também aumentou, de 7,7% para 8,8%.
Outro indicador reforça a deterioração. O percentual de famílias que afirmam não ter condições de quitar as dívidas em atraso subiu de 10,3% para 11,3%, segunda alta consecutiva.
Também aumentou a duração das dívidas. Em agosto, 47,1% das famílias inadimplentes estavam com débitos vencidos havia mais de 90 dias, contra 45,2% em julho. O avanço sinaliza uma possível cronificação da inadimplência, quando o atraso deixa de ser pontual e passa a se prolongar por vários meses.
No conjunto das famílias endividadas, o comprometimento médio da renda chegou a 31,8%. Além disso, 27,6% das famílias endividadas destinavam mais da metade da renda ao pagamento de dívidas.
O que os números dizem sobre o consumo
A deterioração dos indicadores de crédito ocorre em um momento em que a inflação perdeu velocidade, mas os preços acumulados continuam pressionando o orçamento. Para as famílias, a desaceleração da inflação não significa necessariamente que o custo de vida tenha voltado aos níveis anteriores.
É essa diferença entre inflação menor e preços ainda elevados que ajuda a explicar parte do comportamento observado na pesquisa. Com o poder de compra ainda pressionado, o crédito passa a funcionar como mecanismo de ajuste do orçamento.
O problema é que esse mecanismo tem limite. Quanto maior a parcela da renda comprometida com dívidas, menor é o espaço disponível para novas compras e para despesas não essenciais. Para o comércio, portanto, a evolução da Peic é também um indicador sobre a capacidade futura de consumo das famílias de Salvador.
Se a inadimplência continuar avançando e as dívidas permanecerem longas, o efeito tende a aparecer na disposição das famílias para consumir. O crédito que hoje sustenta parte do orçamento pode, adiante, se transformar justamente no fator que restringirá novas compras.
ANÁLISE INDÚSTRIA NEWS
O dado mais relevante da PEIC de agosto não é apenas a alta da inadimplência. É a combinação de indicadores que aponta para um orçamento doméstico cada vez mais apertado.
Endividamento acima de 77%, 80% entre as famílias de menor renda, aumento do consignado, maior comprometimento da renda e crescimento das dívidas com mais de 90 dias formam um quadro de pressão financeira.
Para a economia de Salvador, isso merece atenção porque o consumidor é uma peça central da atividade comercial e de serviços. Se uma parcela maior da renda já está comprometida com dívidas antigas, sobra menos dinheiro para movimentar o comércio.
A questão, portanto, não é apenas quantas famílias estão endividadas. É quanto da renda está comprometido e por quanto tempo essas famílias conseguem sustentar esse nível de dívida.
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