A experiência de Túlio Cerviño no chão de fábrica começou em 2014 e terminou dando origem a uma das histórias mais interessantes de empreendedorismo tecnológico surgidas na Bahia nos últimos anos. Ao perceber a dificuldade de monitorar centenas de trabalhadores em uma planta industrial, o engenheiro mecânico identificou uma lacuna: enquanto máquinas já eram acompanhadas em tempo real, faltava tecnologia para fazer o mesmo com as pessoas. Seis anos depois, em 2020, nasceu em Salvador a Trackfy, criada por Cerviño e pelo cientista da computação Félix Faria. “Eu andava muito no chão de fábrica, gostava muito de conversar com as pessoas que estavam sofrendo aquela dor. Consegui pegar uma base de dados que estava difusa e transformar em uma solução”, conta Túlio, em entrevista ao jornalista Geraldo Bastos, no Webinar da Indústria.
A solução começou com crachás inteligentes e depois incorporou os capacetes, transformando equipamentos de proteção já utilizados pelos trabalhadores em dispositivos conectados. Eles enviam localização em tempo real e podem incorporar acelerômetro para identificar quedas, botão de SOS, alertas sonoros e recursos de proximidade com máquinas e outras áreas de risco.
Os dados seguem para uma plataforma em nuvem, onde algoritmos e ferramentas de análise transformam os sinais captados no campo em informações para gestores. “Você tem os equipamentos que ele já utilizava normalmente, agora com equipamentos inteligentes que funcionam tanto para emitir sinal como para receber sinal”, explica Cerviño.
A tecnologia encontrou espaço principalmente em operações industriais de grande porte, nas quais deslocamento, segurança e produtividade precisam ser acompanhados simultaneamente. A Trackfy passou a atender empresas como Braskem, Dow, Usiminas, Gerdau e São Martinho, ampliando a aplicação da tecnologia para diferentes ambientes e operações.
Em um dos casos apresentados por Túlio, o monitoramento ajudou a reduzir em 67% os deslocamentos desnecessários dos trabalhadores em uma indústria de Camaçari. O objetivo, segundo ele, não é substituir pessoas, mas retirar desperdícios da operação e melhorar as condições de trabalho. “A gente acredita em colocar o ser humano no centro do desenvolvimento, porque isso vai dar resultado”, afirma.
Outro aspecto da trajetória foi a evolução do próprio produto. O que começou como uma ferramenta para saber onde estavam os trabalhadores ganhou novas funções à medida que a empresa passou a entender melhor as necessidades das operações. A tecnologia passou a permitir, por exemplo, identificar a proximidade entre pessoas e equipamentos, criar alertas para situações de risco e gerar dados sobre a movimentação das equipes. Na prática, um equipamento que já fazia parte da rotina de segurança passou a funcionar também como uma fonte de dados para a gestão industrial. Foi essa combinação entre hardware, software e análise de informações que ajudou a diferenciar a Trackfy no mercado.

WakeCap
Foi nesse ritmo de crescimento que a WakeCap apareceu. A empresa saudita especializada em monitoramento de grandes obras, com projetos de 15 mil a 100 mil trabalhadores no Oriente Médio, tinha um problema claro: seu serviço terminava na entrega da obra. “Uma refinaria leva quatro anos para ser construída e 70 anos operando”, disse Cerviño. “A gente atua justamente no funcionamento.” A WakeCap queria exatamente isso: estender sua atuação para a fase de operação e manutenção dos ativos. A Trackfy era a peça que faltava. “Foram eles que chegaram até nós”, contou o CEO.
A negociação foi complexa como qualquer fusão tende a ser. Mas Cerviño surpreendeu-se com a proximidade cultural. O fundador da WakeCap, Hassan Albalawi, tem PhD nos Estados Unidos e a equipe de negociação era americana. “A nossa proximidade com os árabes é muito maior do que com os americanos nesse quesito”, disse. “São calorosos, gostam de negociar. Foi uma surpresa muito positiva.”
O acordo fechou em novembro do ano passado. Cerviño passou a ocupar o cargo de CEO Latam e VP Global de Operações Industriais da empresa combinada. A incorporação levou os fundadores da Trackfy para a estrutura da empresa árabe, e a tecnologia passou a integrar uma operação global. O negócio também mudou a escala da empresa. Segundo Túlio, a integração com a WakeCap permitiu combinar as tecnologias das duas companhias e ampliar a capacidade de monitoramento para grandes projetos.
Depois da incorporação da Trackfy, a empresa passou a acompanhar mais de 25 mil trabalhadores simultaneamente. Para os fundadores, o movimento significou transformar uma solução desenvolvida para atender dores específicas da indústria brasileira em uma tecnologia com potencial de aplicação em diferentes mercados.
Raízes baianas
A internacionalização, porém, não significou a saída da Trackfy da Bahia. O CNPJ matriz permanece no estado e todo o time de desenvolvimento continua trabalhando na Bahia, incluindo as áreas de tecnologia, hardware e propriedade intelectual. A história, portanto, tem um segundo capítulo: a startup que nasceu a partir de uma experiência no chão de fábrica em Salvador agora faz parte de uma companhia de atuação internacional, mas mantém na Bahia o núcleo responsável por desenvolver a tecnologia.
Para Túlio, a principal lição dessa trajetória cabe em uma palavra: resiliência. “A gente pegou um cenário mais difícil e, com a criatividade que a gente tem, conseguiu chegar em soluções que no mundo inteiro ninguém pensou e não conseguiu resolver da mesma forma.”
O WEBINAR DA INDÚSTRIA é um espaço de diálogo promovido pelo Indústria News para discutir os principais temas que impactam a indústria, a economia e os negócios. A cada edição, empresários, executivos, sindicalistas, pesquisadores, dirigentes e especialistas analisam desafios, oportunidades e tendências que ajudam a compreender os rumos do desenvolvimento industrial da Bahia e do Brasil.
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