Quando a AutoMind nasceu, em 1987, a indústria baiana ainda estava consolidando uma transformação que mudaria a economia do Estado. Criada em Salvador por profissionais que haviam participado da implantação do Polo Petroquímico de Camaçari, a empresa surgiu para resolver um problema muito concreto: levar engenharia e automação aos processos industriais que começavam a ganhar escala. Quase quatro décadas depois, a lógica do negócio mudou, mas a essência permanece. A companhia quer transformar o conhecimento acumulado em engenharia industrial em tecnologia capaz de operar em diferentes mercados e atravessar fronteiras. “A empresa nasceu como automação industrial e o foco era Bahia e Nordeste”, lembra Paulo Frank, CEO da AutoMind, em entrevista exclusiva ao Webinar da Indústria.
A mudança é mais profunda do que uma simples ampliação de portfólio. Ao longo dos anos, a AutoMind passou da automação de equipamentos e processos para a integração de dados, sistemas de gestão e apoio à tomada de decisão.
Hoje, a empresa está estruturada em três frentes: automação de processos industriais; integração e tratamento de dados, por meio da unidade Sense Metrics; e automação e gestão logística de granéis líquidos e sólidos, área concentrada na Spark Log. As soluções chegam a plataformas offshore, plantas industriais, terminais de combustíveis e operações de empresas dos setores químico, petroquímico e de óleo e gás. “O que permanece muito forte é esse senso de resolução de desafios e integração de tecnologias”, afirma Frank.
É nessa integração que está uma das principais características do negócio. A AutoMind procura conectar a operação que acontece na ponta – sensores, equipamentos, carregamentos, estoques e movimentação de produtos – às informações necessárias para a tomada de decisão. Em petróleo e gás, por exemplo, os sistemas podem acompanhar dados de produção de petróleo, gás e água, garantir a qualidade das informações e levá-las aos centros de processamento.
Na logística, as soluções conectam agendamento, controle de acesso, carregamento, descarregamento e gestão de inventários. “A nossa essência sempre foi a integração das tecnologias, sempre buscando trazer a conexão das operações até o nível de decisão das empresas”, diz o executivo.
Um projeto realizado para a Pandenor, distribuidora de combustíveis em Recife, ajuda a explicar essa lógica. Diante da necessidade de aumentar a capacidade de movimentação de produtos, a alternativa mais óbvia seria ampliar equipamentos ou a área física do terminal. A AutoMind atuou sobre o processo: integrou um sistema de agendamento à automação existente e conseguiu elevar em 40% a capacidade de movimentação, sem novos equipamentos e sem expansão da área operacional. “Tecnologia é meio, tecnologia não é fim. O primeiro passo é o processo”, resume Frank.
Próximos passoas
O próximo passo da empresa é transformar esse conhecimento desenvolvido em projetos sob medida em produtos digitais que possam ser replicados em diferentes operações. É nesse movimento que entra o Plano AutoMind 2030, estratégia que começou a ser desenhada em 2019 e ganhou uma nova dimensão com o financiamento de R$10,6 milhões do BNDES, por meio do programa BNDES Mais Inovação. Os recursos estão destinados ao desenvolvimento, à validação e ao lançamento de soluções voltadas principalmente para óleo e gás e logística de granéis líquidos.
Entre os produtos está o AutoLoad Cloud, plataforma para automação e gestão da movimentação de granéis líquidos em terminais e bases de distribuição, já em operação em Balsas, no Maranhão. Outro é o AutoChecker, desenvolvido para automatizar a conferência e a validação de documentos utilizados no transporte de produtos perigosos, cruzando informações e identificando inconsistências sem depender da conferência manual. Inteligência artificial, Business Intelligence, gestão de inventários e integração entre sistemas industriais e corporativos entram como componentes dessa nova camada tecnológica. “Se a gente fosse lançar essas soluções há dois anos, não seria possível, ou demandaria um esforço muito maior”, afirma Frank.
A estratégia já começa a aparecer nos números. Segundo o executivo, entre 2020 e 2024 o faturamento da AutoMind mais que dobrou. A ambição agora é fazer com que o crescimento deixe de depender exclusivamente da expansão de serviços de engenharia e passe a incorporar receitas provenientes de softwares e plataformas que possam ser comercializados em diferentes mercados.
“Esse financiamento é parte de um planejamento estratégico que nasceu lá em 2019”, explicou Frank. “A ideia é garantir um crescimento consistente, com geração de riqueza para colaboradores, acionistas e para a sociedade.”
Internacionalização
A internacionalização é a outra peça dessa equação. A AutoMind abriu sua operação em Houston, nos Estados Unidos, em 2023, mirando principalmente terminais de granéis líquidos, midstream e infraestrutura de óleo e gás. A experiência internacional, entretanto, começou antes. Em 2014, a empresa venceu uma concorrência no Peru para fornecer soluções a dez terminais, disputando o projeto com grandes companhias globais de automação. Agora, o objetivo é diferente: Houston deve funcionar menos como uma réplica da estrutura brasileira e mais como uma plataforma comercial para levar os produtos desenvolvidos no Brasil ao mercado norte-americano.
A experiência nos Estados Unidos também trouxe uma constatação que reforçou a estratégia. Segundo Frank, a empresa esperava encontrar um ambiente tecnologicamente mais difícil de penetrar, mas identificou oportunidades justamente porque parte da indústria americana ainda apresenta lacunas na integração de sistemas e dados.
“A gente imaginava que seria muito desafiador levar software para lá. O que surpreendeu é que há um gap muito grande nessa área de tecnologia na indústria”, afirmou. A leitura da empresa é que a experiência adquirida em um mercado industrial complexo como o brasileiro pode se transformar em vantagem na expansão internacional.
Até 2030, a prioridade está concentrada nas Américas, onde a companhia identifica maior proximidade entre os padrões industriais e os mercados em que já acumulou experiência. Europa e Ásia ficam para uma etapa posterior.
A Bahia
A sede, entretanto, permanece em Salvador. É na Bahia que continuam concentradas a maior parte da engenharia, a estrutura corporativa e os principais líderes da companhia. “Todo o time de engenharia, o time corporativo, os principais líderes de negócio estão aqui”, reforça Frank.
Para a AutoMind, essa permanência em Salvador não é apenas uma questão de origem. A empresa aposta na combinação entre formação profissional, infraestrutura tecnológica e experiência industrial construída na Bahia. Frank cita universidades e centros como o Cimatec e a própria trajetória industrial do Estado como ativos para a formação de empresas capazes de competir em mercados internacionais. O desafio, na sua avaliação, está menos na capacidade técnica e mais na disposição para construir estratégias de longo prazo. “Não dá para ser curto-prazista. Requer planejamento.”
O WEBINAR DA INDÚSTRIA é um espaço de diálogo promovido pelo Indústria News para discutir os principais temas que impactam a indústria, a economia e os negócios. A cada edição, empresários, executivos, sindicalistas, pesquisadores, dirigentes e especialistas analisam desafios, oportunidades e tendências que ajudam a compreender os rumos do desenvolvimento industrial da Bahia e do Brasil.
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