
A redução da Selic para 13,75% ao ano foi recebida como um sinal positivo pelo setor produtivo, mas ainda distante do nível necessário para destravar de forma mais ampla o crédito e os investimentos. CNI, Fieb e CBIC defenderam nesta quarta-feira (16) a continuidade do ciclo de cortes iniciado pelo Banco Central.
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual. Para as entidades empresariais, a decisão representa um primeiro avanço em um ambiente de inflação mais comportada, mas os juros continuam impondo um custo elevado para empresas e famílias.
Na avaliação da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb ), o corte melhora as condições para o investimento produtivo e pode contribuir para o crescimento econômico e a geração de empregos. A entidade, porém, considera que a taxa ainda está em nível elevado e defende a continuidade da flexibilização, de forma gradual e responsável.
O argumento ganha peso quando se olha para o custo efetivo do dinheiro na economia. Segundo dados citados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a taxa média das operações de crédito com recursos livres chegou a 47,7% ao ano em julho, enquanto para as empresas ficou em 25,4%. Entre as pessoas físicas, alcançou 60%.
O resultado aparece também na inadimplência. No crédito livre, ela chegou a 7,8% entre as pessoas físicas, maior nível da série histórica, e a 4,2% entre as empresas. O endividamento das famílias alcançou 49,8% da renda em junho, enquanto o comprometimento da renda com o serviço da dívida chegou a 28,9%.
Para a CNI, esses números mostram que a política monetária continua tendo efeitos importantes sobre a economia real.
Indústria vê corte como insuficiente
A CNI classificou a decisão do Copom como correta, mas “extremamente cautelosa”. A entidade considera que a trajetória recente da inflação abre espaço para uma redução mais consistente da taxa básica.
“É essencial que o Banco Central dê continuidade ao ciclo de redução da Selic. Manter a taxa básica em patamar tão restritivo por período prolongado significa impor à economia um custo maior do que o necessário para assegurar a estabilidade de preços. Há espaço para avançar no ciclo de cortes sem comprometer a convergência da inflação para a meta”, afirma Ricardo Alban, presidente da CNI.
A entidade também chama atenção para o impacto dos juros sobre o funcionamento cotidiano das empresas. Pesquisa realizada pela CNI com 179 companhias de 28 setores mostra que as empresas esperam maior necessidade de capital de giro e crédito mais caro nos próximos três meses.
Entre as empresas consultadas, 56% projetam maior necessidade de financiamento para contas a pagar, 50% para manutenção de estoques e 49% para contas a receber. Entre as que esperam recorrer mais ao crédito, cerca de 60% também preveem aumento das taxas cobradas.
A pressão chega às margens. Segundo a pesquisa, 57% das empresas esperam redução da margem líquida, enquanto aproximadamente um terço prevê aumento do endividamento bancário.
O espaço para repassar esse custo aos preços também é limitado: 53% das empresas pretendem manter seus preços, enquanto 35% planejam aumentá-los.
Bahia vê espaço para novos investimentos
Na Bahia, a Fieb considera que a redução pode ajudar a melhorar as condições para investimentos em expansão de capacidade, compra de máquinas e equipamentos, modernização tecnológica e implantação de novos projetos.
A entidade também aponta sinais de moderação da economia que, em sua avaliação, justificam a continuidade da flexibilização. O PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, abaixo do avanço de 1,1% registrado nos primeiros três meses do ano. Na comparação anual, a expansão foi de 2%.
A inflação acumulada em 12 meses também recuou, de 4,44% em julho para 4,22% em agosto, segundo os dados citados pela Fieb . No mês, o IPCA registrou queda de 0,32%.
A federação, no entanto, reconhece que permanecem riscos no cenário econômico, especialmente relacionados às contas públicas, às expectativas de inflação e às incertezas internacionais.
Construção depende de um ciclo mais longo
O setor da construção recebeu o corte com a mesma combinação de alívio e cautela. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) considerou positiva a redução, mas destacou que o nível da Selic continua dificultando uma retomada mais consistente do crédito e dos investimentos.
O impacto é particularmente relevante para a construção porque os projetos têm ciclo longo e dependem de financiamento e previsibilidade.
“Estamos com juros de dois dígitos desde o início de 2022, o que representa um grande desafio para o empresário, especialmente em um setor como a construção, que trabalha com projetos de longo prazo e depende de crédito e previsibilidade”, afirmou Eduardo Almeida, presidente da CBIC.
Para a entidade, a redução dos juros precisa ser acompanhada pela construção de um ambiente macroeconômico que permita a continuidade do movimento e favoreça novos investimentos.
Atividade perde ritmo
A cobrança por novos cortes também está relacionada ao comportamento recente da atividade econômica. A CNI destaca que o PIB avançou 0,5% no segundo trimestre, enquanto o consumo das famílias recuou 0,4% e a indústria de transformação ficou estagnada.
O PMI Industrial do Brasil caiu de 47,5 pontos em julho para 46,3 em agosto, segundo a entidade, indicando deterioração das condições da indústria de transformação.
O quadro ajuda a explicar por que o setor produtivo considera o corte um passo importante, mas insuficiente para alterar rapidamente as condições de financiamento.
A questão central agora é a velocidade da transmissão da política monetária. Uma Selic menor não reduz automaticamente, na mesma proporção, os juros cobrados de empresas e consumidores. O efeito sobre crédito, investimento e atividade ocorre gradualmente e depende também das condições financeiras, das expectativas e da percepção de risco.
O QUE FICA DESSA HISTÓRIA
O corte de 0,25 ponto percentual muda a direção dos juros, mas ainda não muda de forma significativa o ambiente de crédito. Para a indústria e a construção, a discussão agora passa menos pela primeira redução e mais pela capacidade de o Banco Central dar continuidade ao processo.
O ponto levantado pelas entidades empresariais é objetivo: com crédito caro, empresas adiam investimentos, trabalham com margens mais apertadas e aumentam a necessidade de capital de giro. Na construção, o impacto é ainda maior porque projetos dependem de financiamento por períodos longos.
Para a economia baiana, a redução abre uma janela para investimentos produtivos, mas a intensidade desse efeito dependerá dos próximos passos da política monetária e da evolução da inflação e das contas públicas.
Leia também: Brasil aposta em minerais críticos e estratégicos para atrair R$7 bilhões


















