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Capa Indústria em Foco

Tombo calçadista e gargalos globais testam a resiliência da indústria

Queda nas exportações de calçados contrasta com investimentos em petróleo, mineração e indústria naval. Veja os destaque da semana aqui

INDÚSTRIA NEWS por INDÚSTRIA NEWS
23/08/2026
em Indústria em Foco
Tempo de Leitura: 11 minutos
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Tombo calçadista e gargalos globais testam a resiliência da indústria

As exportações da indústria calçadista baiana despencaram em julho

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INDÚSTRIA EM FOCO

A  semana de 16 a 22 de agosto de 2026 expôs fraturas que vinham sendo escondidas pelos números agregados. A indústria calçadista baiana registrou queda superior a 50% nas exportações de julho e o Brasil tocou em algo que não via desde 1997: um déficit comercial em calçados. A PetroReconcavo suspendeu a usina de gás própria na Bahia depois de fechar acordo com a Petrobras. E a Vale apresentou um plano de R$ 1,3 trilhão para destravar a mineração,  mas o setor do aço, ao mesmo tempo, caiu para 43 pontos no indicador de confiança. São sinais contraditórios que exigem leitura cuidadosa de quem toma decisões de investimento na região.

NOTÍCIA EM DESTAQUE

Indústria calçadista baiana perde mais da metade das exportações em julho

Os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pela Abicalçados revelam um mês de julho devastador para o setor calçadista baiano: as exportações caíram mais de 57% em relação ao mesmo mês de 2025. No Brasil como um todo, as exportações somaram US$62,38 milhões e 6,28 milhões de pares em julho –  recuos de 18,6% em receita e 12,5% em volume sobre o mesmo período do ano passado. Do lado das importações, o país comprou US$ 66 milhões em calçados do exterior no mês, resultado que gerou o primeiro déficit comercial do setor desde 1997. No acumulado de janeiro a julho, as importações cresceram 10,4% em receita, enquanto as exportações caíram 18% no mesmo intervalo. A causa imediata é dupla: as exportações para os Estados Unidos recuaram 25% em receita, pressionadas pela nova tarifa de 25% imposta a produtos brasileiros, e as vendas para a Argentina despencaram 58%. Do lado das importações, calçados chineses avançaram 13% em receita e 26,8% em volume no acumulado do ano, enquanto Vietnã e Indonésia também ampliaram participação. A Abicalçados revisou a projeção de queda das exportações para 7,1% ao fim de 2026 –  piora de 3,5 pontos percentuais sobre a estimativa anterior.

Por que isso importa: A Bahia é o quarto maior polo calçadista do Brasil, com mais de 41,7 mil empregos diretos concentrados em municípios do sudoeste do estado. Uma queda dessa magnitude nas exportações não é apenas um número ruim numa planilha: ela representa risco real de desaceleração de contratações, revisão de turnos e cancelamento de pedidos na cadeia de fornecedores locais. O problema tem três camadas. A primeira é externa –  as tarifas americanas cortaram o acesso ao principal mercado de valor do setor; a segunda é conjuntural – a Argentina, que foi segundo destino do calçado baiano, está sem reservas e sem consumo; a terceira é estrutural:  a China e o Sudeste Asiático estão ocupando o mercado interno brasileiro com produtos mais baratos. Não é um choque passageiro. A Abicalçados projetava que apenas 9% do calçado produzido no Brasil seria exportado em 2026,  o pior coeficiente de exportação da série histórica. As empresas baianas do setor precisam avaliar agora: a quem vender, a que preço e com qual produto. O mercado interno brasileiro pode absorver parte da produção, mas só se houver ajuste de mix e de canais de distribuição.

calcados 1

PRINCIPAIS NOTÍCIAS

1 –  Acordo com Petrobras faz PetroReconcavo adiar usina de gás de US$ 60 mi na Bahia

A  PetroReconcavo assinou na quarta-feira (19) o 5º aditivo ao contrato de acesso à UTG Catu, unidade de tratamento de gás da Petrobras em Pojuca (BA), garantindo capacidade contratada de processamento entre 2028 e 2037. Com a segurança do acesso à infraestrutura existente, a empresa suspendeu a Decisão Final de Investimento da UPGN Miranga –  planta própria de gás anunciada em novembro de 2024 com Capex estimado em US$ 60 milhões e capacidade inicial de 950 mil m³/dia. O projeto não foi cancelado: permanecem os investimentos já realizados em terreno, projeto básico e licenciamento ambiental. A Brava Energia e a Origem Energia também integraram o novo pool de acesso à UTG Catu.

Por que isso importa: Para a PetroReconcavo, o movimento é de racionalidade financeira: por que gastar US$60 milhões em infraestrutura própria se existe capacidade disponível na Petrobras por mais nove anos? O ponto que fica em aberto é o desenvolvimento futuro do Ativo Bahia. Se a produção de gás crescer além da capacidade da UTG Catu, o projeto da UPGN Miranga volta para a mesa. Para o ecossistema industrial baiano, a suspensão adia a criação de um hub próprio de processamento no interior do estado,  o que teria efeitos encadeados em emprego técnico e fornecimento de equipamentos locais.

2 –  Petróleo da União bate recorde e amplia peso do pré-sal

A parcela de petróleo pertencente à União chegou a 244 mil barris por dia em maio, recorde da série histórica da PPSA. O volume cresceu cerca de 30% sobre abril e 90,6% em um ano, impulsionado pelo avanço dos contratos de partilha.

Por que isso importa: A maior oferta direta de óleo nas mãos do governo federal aumenta a margem de manobra para leilões e contratos de longo prazo. Para o Nordeste, abre-se uma janela de oportunidade para atrair insumos competitivos para as refinarias e polos petroquímicos da região.

3 – Belov amplia carteira naval com quatro novos rebocadores

O Grupo Belov, estaleiro sediado na Baía de Aratu em Simões Filho (BA), assinou contrato com   SAAM Towage Brasil para a construção de quatro rebocadores azimutais com 70 toneladas de bollard pull, sistema de combate a incêndio FiFi 1 e projeto desenvolvido pela Robert Allan Ltd. O contrato foi formalizado pelo Fundo da Marinha Mercante após transferência da encomenda que estava originalmente atribuída ao Estaleiro Detroit Brasil. O Belov participa da Navalshore 2026 e projeta presença crescente na agenda de descomissionamento de plataformas da Petrobras na Bahia.

Por que isso importa: O Grupo Belov é um dos poucos estaleiros industriais ativos na Bahia com capacidade certificada para embarcações complexas. A encomenda dos quatro rebocadores consolida a posição do estaleiro baiano como alternativa real ao Sul do país no mercado de apoio marítimo –  e reforça a cadeia naval do estado em momento em que a Petrobras expande a demanda por embarcações de suporte. Para quem fornece aço naval, sistemas elétricos, equipamentos de deck e serviços de engenharia na região, o contrato representa demanda concreta.

4 – Protecionismo começa a redesenhar a indústria de árvores cultivadas

O  setor brasileiro de árvores cultivadas exportou US$ 7,5 bilhões no primeiro semestre, queda de 5,9% sobre 2025. A celulose teve produção praticamente estável, mas as exportações recuaram 10,5%; para a América do Norte, a queda chegou a 22,4%.

Por que isso importa: A indústria de florestas plantadas é um dos pilares menos visíveis da indústria baiana,  mas gera bilhões em receitas de exportação, emprega dezenas de milhares de pessoas no interior do estado e sustenta uma cadeia de serviços florestais, logística e química. Se a reorientação de mercados exigir investimentos em certificação, logística alternativa ou processamento adicional, isso cria oportunidade para fornecedores locais. Empresas do setor que já têm carteiras diversificadas geograficamente tendem a sair melhor do que as dependentes do mercado norte-americano.

5 – Aço vende mais, mas empresários olham para frente com cautela

Em julho, as vendas internas de aço cresceram 4,1%, enquanto as exportações avançaram 9,8%. Mesmo assim, o Indicador de Confiança da Indústria do Aço caiu para 43 pontos em agosto, abaixo da linha de 50 que separa confiança de pessimismo.

Por que isso importa:  O aço é insumo da construção civil, da indústria automotiva e da fabricação de equipamentos industriais –  tudo que a Bahia tem em volume relevante. A contradição entre vendas crescendo e confiança caindo pode ser explicada pelo horizonte: os CEOs estão vendo bem o presente, mas não enxergam o futuro com clareza. Incerteza sobre a reforma tributária, juro real ainda elevado e risco de retomada das importações asiáticas travam decisões de expansão. Para compradores industriais de aço no estado, o momento pode ser favorável para negociar preços e prazo.

6 – Vale calcula potencial de R$ 1,3 trilhão para a mineração

Estudo apresentado pela Vale aponta que a mineração poderia gerar R$ 1,3 trilhão em arrecadação entre 2026 e 2035 e elevar o número de empregos associados ao setor para 5,3 milhões. O diagnóstico também aponta que apenas 28% do território brasileiro está mapeado em escala adequada para orientar investimentos minerais.

Por que isso importa: A discussão chega em um momento estratégico para a Bahia, que possui reservas de minerais metálicos e projetos ligados à transição energética. O gargalo, agora, é transformar potencial geológico em projetos economicamente viáveis.

Super Resumo

    • PetroReconcavo + Petrobras → contratos de processamento de gás até 2037 suspendem, por enquanto, a UPGN Miranga de US$ 60 milhões.
    • Belov + SAAM Towage → quatro novos rebocadores reforçam a indústria naval na Bahia.
    • PPSA → parcela de petróleo da União alcança recorde de 244 mil barris/dia.
    • Vale →  proposta para destravar mineração projeta R$ 1,3 trilhão em arrecadação até 2035.
    • Indústria de árvores cultivadas →  exportações recuam 5,9% no primeiro semestre, sob pressão do protecionismo.

Análise

O principal sinal da semana está na distância entre a indústria que investe e a indústria que consegue vender. Petróleo, mineração, gás e construção naval continuam atraindo capital, mas setores mais expostos ao comércio internacional enfrentam um ambiente muito mais duro. O tarifaço americano acelerou um processo que já estava em curso: empresas brasileiras precisam rever mercados, cadeias de suprimentos e estratégias de preço.

Para a indústria da Bahia, a diversificação ganha ainda mais importância. A dependência de poucos segmentos ou destinos externos aumenta a vulnerabilidade diante de choques que a empresa não controla. O avanço da Belov, a expansão da cadeia de petróleo e gás e a busca de novas receitas na mineração mostram que há alternativas. Mas elas exigem infraestrutura, mão de obra qualificada e fornecedores capazes de acompanhar projetos mais sofisticados.

O executivo deve olhar para três variáveis nos próximos meses: o comportamento das exportações industriais, especialmente nos setores atingidos pelas barreiras comerciais; a capacidade de novos projetos de petróleo, gás e mineração de gerar cadeia produtiva local; e o efeito do ambiente externo sobre as decisões de investimento. A semana industrial deixa uma conclusão pouco confortável: competitividade não será medida apenas pela capacidade de produzir mais, mas pela capacidade de continuar vendendo quando o mundo fecha portas.

Agenda da Semana

26/8 (quarta-feira) 

  • O IBGE divulga o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de agosto. HÁ DADOS PARA A REGIÃO METROPOLITANA DE SALVADOR
  • O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a CNI, no âmbito da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), realizam o I Encontro Nacional dos Embaixadores da Lei do Bem. O evento ocorre no SESI Lab, em Brasília, a partir das 9h. A iniciativa tem como objetivo ampliar o alcance da Lei do Bem, fortalecer a cultura da inovação e aproximar as empresas brasileiras desse instrumento de apoio a pesquisa, desenvolvimento e inovação.
  • Também na quarta, a CNI apresenta os Resultados Setoriais do Índice de Confiança do Empresário Industrial. A pesquisa mostra como está a confiança de cada um dos 29 segmentos da indústria.

27/8 (quinta-feira) 

  • O IBGE divulga  Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNADC) de julho. HÁ DADOS APENAS PARA O BRASIL COMO UM TODO
  • O IBGE divulga  Pesquisa Anual de Serviços (PAS) de 2024. HÁ DADOS PARA A BAHIA
  • O Instituto Euvaldo Lodi (IEL) divulga, na quinta-feira (27), às 8h, novas vagas de estágio oferecidas por empresas e indústrias em diferentes regiões do país. As oportunidades são destinadas a estudantes do ensino médio, técnico e superior, em diversas áreas de atuação, com bolsa-auxílio e benefícios. Para participar, é necessário estar regularmente matriculado e atender aos requisitos específicos de cada vaga.

28/8 (sexta-feira) 

  • O IBGE divulga  Índice de Preços ao Produtor – Indústrias Extrativas e de Transformação (IPP) de julho. HÁ DADOS APENAS PARA O BRASIL COMO UM TODO.

* 2026 Indústria News · Análise Semanal · Edição 16/8 a 22/8 · Todos os direitos reservados.

As informações aqui contidas são elaboradas com base em fontes públicas e matérias jornalísticas. Não constituem recomendação de investimento.

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 Leia também: A Bahia começa a transformar minério em estratégia industrial

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