A Bahia pode ganhar, nos próximos anos, um dos projetos mais relevantes do país na cadeia de terras raras. A Borborema Recursos Estratégicos (BRE) prevê investir R$5 bilhões no Projeto Monte Alto, empreendimento que pretende integrar mineração, processamento e transformação dos minerais. A primeira etapa está planejada para Ubaíra e Jiquiriçá, no interior do estado, enquanto a fase industrial deverá ser instalada em Camaçari.
O projeto foi apresentado nesta quinta-feira (27) pelo presidente da BRE, Renato Gonzaga, durante reunião da diretoria da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). Mais do que explorar uma nova ocorrência mineral, a empresa pretende construir uma cadeia que avance até etapas de maior valor agregado – justamente onde está uma das principais limitações da indústria global de terras raras.
A primeira fase, chamada Escopo Rocha da Rocha, está associada a uma província mineral com aproximadamente 160 quilômetros de extensão. Segundo a empresa, a área apresenta ocorrência de argilas iônicas com características que podem favorecer uma exploração industrial com menor custo operacional e menor impacto ambiental.
“É um projeto com uma mineralização única no mundo e com potencial para colocar o Brasil como um ator extremamente relevante no cenário global das terras raras.”
Renato Gonzaga, presidente da Borborema Recursos Estratégicos
Da mineração no interior ao processamento em Camaçari
O desenho do Monte Alto é dividido em duas grandes frentes.
A primeira envolve a exploração mineral e a produção do concentrado de terras raras em Ubaíra e Jiquiriçá. A previsão da companhia é iniciar essa produção em 2031, desde que as etapas de engenharia e licenciamento ambiental avancem dentro do cronograma.
A segunda etapa é a que pode dar ao projeto um caráter mais industrial. A BRE planeja instalar em Camaçari um hub de produção destinado ao processamento do concentrado, incluindo processos de hidrometalurgia e separação dos óxidos de terras raras.
A unidade poderá entrar em operação por volta de 2034, mas o prazo ainda está sujeito ao desenvolvimento das tecnologias e às demais etapas de implantação.
O projeto conta com a participação do Senai Cimatec, que trabalha no desenvolvimento de plantas-piloto para testar os processos industriais. A parceria busca resolver uma questão central da cadeia de terras raras: não basta encontrar o minério; é preciso dominar a tecnologia para transformá-lo em insumo industrial.
Por que as terras raras ganharam importância
Os minerais encontrados na Bahia têm aplicação em setores que estão no centro da transformação tecnológica e energética da economia mundial.
O depósito reúne quatro elementos magnéticos considerados estratégicos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Eles são utilizados, entre outras aplicações, na fabricação de ímãs permanentes para motores de veículos elétricos e aerogeradores, além de equipamentos relacionados à inteligência artificial, data centers e outras tecnologias.
A relevância econômica está justamente na concentração da cadeia global. Poucos países dominam não apenas a mineração, mas também as etapas de processamento e separação dos diferentes elementos.
É uma barreira que a BRE pretende enfrentar desenvolvendo tecnologia para avançar além da extração.
“O que o mundo ocidental está tentando fazer, ao desenvolver uma cadeia alternativa, não passa apenas pela descoberta de novos depósitos, mas também pela disponibilidade de tecnologias de processamento.”
Segundo Gonzaga, essas tecnologias estão atualmente concentradas em poucos países e empresas. Por isso, o projeto prevê desde o início uma estratégia que contemple exploração, processamento e transformação.
Camaçari entra como elo industrial
A escolha de Camaçari para a segunda etapa coloca o projeto dentro de um dos principais polos industriais da Bahia.
A cidade reúne infraestrutura, fornecedores, mão de obra especializada e uma cadeia industrial que pode facilitar a implantação de uma unidade de processamento. O desafio será conectar essa estrutura à produção mineral do interior e transformar a vantagem geológica em uma operação industrial competitiva.
É justamente nessa etapa que a parceria com o Senai Cimatec ganha importância. As plantas-piloto servirão para testar e aperfeiçoar os processos antes da implantação em escala industrial.
“O Senai Cimatec é uma instituição extremamente qualificada e importante para o desenvolvimento tecnológico. Estamos muito felizes com essa parceria”, afirmou Gonzaga.
Fieb aposta no efeito sobre a cadeia industrial
Durante a apresentação, o presidente da Fieb, Carlos Henrique Passos, colocou o Sistema Fieb à disposição da empresa e destacou que a participação das instituições deve ir além do apoio ao empreendimento.
Para o presidente do Sindimiba, Edvaldo Amaral, o projeto ocorre em um momento de expansão das oportunidades para a mineração baiana.
A Bahia já possui projetos e ocorrências relevantes de lítio, vanádio, ouro e cobre. A entrada das terras raras amplia esse mapa e, na avaliação do setor, cria uma oportunidade para o estado avançar também na transformação industrial dos recursos minerais.
“Precisamos aproveitar esse potencial para ampliar a produção, transformar os recursos minerais em produtos de maior valor agregado e promover o desenvolvimento do interior do estado.”
O desafio é transformar reserva em cadeia produtiva
Os R$ 5 bilhões anunciados representam o tamanho potencial do empreendimento, mas o projeto ainda está em uma fase de desenvolvimento. Antes de chegar à produção, a empresa terá de avançar em engenharia, definição dos processos industriais, licenciamento ambiental e implantação das estruturas.
O cronograma também mostra que os resultados não serão imediatos. A primeira previsão de produção está para 2031. A unidade de processamento de Camaçari viria depois, por volta de 2034.
Essa diferença de etapas é importante porque o maior ganho econômico do projeto pode estar justamente na segunda fase. A mineração gera valor, mas o processamento e a separação dos elementos são as etapas que permitem capturar uma parcela maior da renda e do conhecimento tecnológico da cadeia.
ANÁLISE INDÚSTRIA NEWS
O Projeto Monte Alto coloca a Bahia diante de uma oportunidade que vai além da mineração.
O estado tem o recurso mineral no interior, um dos maiores polos industriais do Nordeste em Camaçari e uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento tecnológico capaz de participar da construção dos processos de beneficiamento. O desafio é fazer essas três pontas funcionarem como uma única cadeia.
Se a estratégia avançar, a Bahia poderá deixar de ser apenas fornecedora de matéria-prima e participar de etapas industriais de uma cadeia considerada estratégica para veículos elétricos, geração eólica e tecnologias digitais.
Mas há um longo caminho até lá. O calendário de 2031 para o concentrado e 2034 para o processamento mostra que o projeto ainda depende de decisões técnicas, ambientais e de investimento.
O que está em disputa não é apenas a exploração de uma jazida. É a possibilidade de transformar uma vantagem geológica em uma plataforma industrial baiana.
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