
No atracadouro de Nova Viçosa, o movimento das pequenas embarcações ajuda a entender a cidade melhor do que qualquer folheto turístico. Barcos de pesca dividem espaço com embarcações que levam visitantes para as ilhas e manguezais. De um lado, está uma economia construída em torno do mar. Do outro, um turismo que descobriu nas águas calmas, na biodiversidade e na proximidade de Abrolhos uma oportunidade de crescimento.
É nesse encontro que está o verdadeiro retrato de Nova Viçosa.
Fundada em 1755 às margens do Rio Peruípe, onde um capitão de conquistas chamado João Domingos Monteiro chegou, gostou da paisagem e resolveu ficar, Nova Viçosa tem 41 mil habitantes e uma posição geográfica que, no papel, deveria render mais do que rende. Fica a 270 km de Porto Seguro e a 103 km do aeroporto de Teixeira de Freitas. Está entre os municípios mais próximos do Arquipélago de Abrolhos – um dos maiores santuários marinhos do Brasil, com corais raros e baleias jubarte que visitam a região de julho a novembro, conforme dados da Câmara Municipal de Nova Viçosa.
A história ajuda a explicar essa relação permanente com a água.
Conforme material publicado pelo Bahia Terra Turismo & Eventos, a ocupação colonial da região começou às margens do rio Peruípe, onde foi formado o povoado de Campinho. A área era habitada por indígenas aimorés antes da chegada dos colonizadores. Ao longo dos séculos, o núcleo passou por diferentes denominações e transformações administrativas até se tornar Nova Viçosa.
A cidade também carrega marcas de ciclos econômicos que vieram antes do turismo. O cultivo do café, ainda no século XVIII, aparece entre as primeiras experiências agrícolas da região. Mais tarde, pesca e processamento de madeira ajudaram a movimentar a economia local. A antiga Estação Ferroviária de Helvécia, inaugurada em 1897, é outro registro dessa trajetória e da presença de comunidades de origem suíça e alemã no território.
O turismo entrou nessa história sem apagar completamente o que já existia.
Atrativos
As praias de mar tranquilo são um dos principais ativos. Lugar Comum e Pau Fincado concentram parte da estrutura de barracas e recebem moradores e visitantes. Já Sabacuí apresenta um perfil mais preservado, com vegetação de restinga e áreas de reprodução de tartarugas marinhas, segundo o Bahia Terra Turismo & Eventos.
Mas é no encontro entre rio e oceano que Nova Viçosa encontra uma de suas experiências mais particulares.
Do porto partem embarcações para a Ilha de Barra Velha, cercada por manguezais, restinga e Mata Atlântica, e para a Ilha de Coroa Vermelha, localizada a cerca de 20 quilômetros da costa. A proximidade com o Arquipélago de Abrolhos amplia esse potencial. De acordo com a Câmara Municipal, a região está entre as mais próximas do santuário ecológico, que recebe baleias-jubarte entre julho e novembro e atrai visitantes interessados em mergulho e observação da vida marinha.
Esse conjunto cria uma cadeia econômica que vai muito além da hotelaria.
Há trabalho para pescadores, barqueiros, guias, restaurantes, barracas de praia, pequenos comerciantes, pousadas e produtores ligados à gastronomia. O porto, nesse sentido, não é apenas cenário. É infraestrutura turística e produtiva ao mesmo tempo.
É também onde aparece uma das maiores oportunidades de Nova Viçosa: transformar o passeio pelo território em uma experiência econômica mais longa.
O visitante que chega para passar alguns dias na praia pode consumir gastronomia local, contratar um passeio de barco, conhecer o patrimônio histórico, visitar Helvécia e utilizar serviços de guias. Quanto maior o tempo de permanência, maior a capacidade de distribuir a renda do turismo entre diferentes negócios.
Mas essa equação ainda tem obstáculos.
O primeiro é a distância dos grandes centros emissores. Nova Viçosa está a cerca de 103 quilômetros do aeroporto de Teixeira de Freitas e mais de 300 quilômetros do aeroporto de Porto Seguro. Para um destino que depende da atração de visitantes de outras regiões, a conectividade é uma variável decisiva.
Parte do litoral sul da cidade ainda tem trechos sem pavimentação. Quem chega de carro num fim de semana de chuva descobre isso rapidinho.
A cadeia turística segue fragmentada. Segundo reportagem do portal O Antagonista, publicada em julho de 2025, a cidade “busca aprimorar sua oferta de hospedagem e serviços”, frase que, traduzida, significa que ainda há lacunas. Os pescadores, que dão toda a identidade ao porto, começam a migrar para o turismo, mas de forma espontânea, sem formação, sem política pública de suporte e sem organização em cadeia produtiva.
Há também o desafio de transformar biodiversidade em turismo sustentável sem transformar a própria natureza em vítima do sucesso. Manguezais, restingas, áreas de reprodução de tartarugas e ambientes marinhos exigem controle, fiscalização e planejamento. O crescimento do fluxo turístico precisa caminhar junto com saneamento, gestão de resíduos, conservação e qualificação dos serviços.
Nova Viçosa, portanto, não precisa necessariamente disputar turistas com Porto Seguro ou Prado na lógica do volume. Seu diferencial está em outro lugar.
O município tem condições de vender tempo, experiência e território.
O QUE FICA DESSA HISTÓRIA
Nova Viçosa mostra que um destino turístico não começa quando o turista chega. Ele começa no porto, na estrada, na pousada, na cozinha do restaurante, no barco do pescador e na conservação da praia.
O desafio da cidade é transformar essa rede já existente em uma estratégia integrada. A paisagem já está pronta. A próxima etapa é fazer a economia que existe ao redor dela crescer de forma organizada – e durante mais meses do ano.
O que trava não é falta de atração. É saneamento, acesso, e a ausência de uma política que enxergue turismo como cadeia – não como calendário de eventos.
Fontes: Câmara Municipal de Nova Viçosa (camaranovavicosa.ba.gov.br); site Bahia Terra Turismo & Eventos (bahiaterra.com); Instituto Água e Saneamento (aguaesaneamento.org.br); Ministério Público do Estado da Bahia (mpba.mp.br); portal O Antagonista.
O Lado B dos Destinos é uma coluna quinzenal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
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