As exportações de calçados da Bahia sofreram um tombo de 51% na receita em julho, na comparação com o mesmo mês de 2025. O estado faturou US$3,61 milhões com os embarques, contra US$7,37 milhões um ano antes. Em volume, a queda foi ainda maior: 52,9%, de 405,8 mil para 191,2 mil pares. Os dados são da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).
O resultado coloca a indústria calçadista baiana diante de um cenário de forte perda de mercado externo. E o problema não ficou restrito a julho. Entre janeiro e julho, as exportações do estado acumulam queda de 31% na receita e de 28,2% no número de pares embarcados em relação ao mesmo período de 2025.
O recuo baiano ocorre em um momento de deterioração do comércio exterior do setor em todo o país. Em julho, as exportações brasileiras de calçados somaram US$62,38 milhões, queda de 18,6%, enquanto o volume embarcado recuou 12,5%, para 6,28 milhões de pares.
A diferença de intensidade chama atenção. Enquanto a indústria brasileira reduziu as vendas externas em quase um quinto em receita, a Bahia perdeu mais da metade do faturamento no mês.
Menos pares, mas preço médio maior
O comportamento do preço médio ajuda a dimensionar o que aconteceu.
O valor médio do calçado baiano exportado passou de US$18,16 em julho de 2025 para US$18,89 neste ano, alta de aproximadamente 4%. Ou seja, a forte redução da receita não veio de uma desvalorização dos produtos embarcados.
O problema esteve principalmente na quantidade vendida ao exterior.
Foram 214,6 mil pares a menos enviados para outros países em apenas um ano. A retração de volume, portanto, foi muito superior à variação do preço médio e explica a maior parte do tombo na receita.
O dado também mostra por que o resultado de julho merece atenção. Mesmo com uma melhora no valor médio por par, a indústria baiana não conseguiu compensar a perda de volume.
Setor brasileiro entra no vermelho
A deterioração das exportações ocorre simultaneamente ao avanço das importações. O resultado foi inédito na série histórica iniciada em 1997: a indústria calçadista brasileira registrou déficit comercial em julho. As importações alcançaram US$66 milhões, praticamente estáveis em relação a julho de 2025, enquanto as exportações ficaram em US$62,38 milhões. O saldo negativo chegou a US$3,6 milhões.
No acumulado do ano, porém, o setor ainda mantém superávit. De janeiro a julho, o Brasil exportou US$ 470,6 milhões em calçados, enquanto importou US$ 373 milhões.
O problema é a direção dos movimentos. As exportações recuaram 18% em receita e 7,6% em volume, enquanto as importações avançaram 10,4% em valor e 12,8% em quantidade.
É uma combinação desfavorável para a indústria nacional: menos vendas externas e maior presença do produto importado no mercado brasileiro.
Ásia ganha espaço no mercado brasileiro
A pressão competitiva também aparece na origem dos calçados que chegam ao país. China, Vietnã e Indonésia respondem por quase oito de cada dez pares importados pelo Brasil. Entre janeiro e julho, as compras chinesas cresceram 26,8% em volume, para 10 milhões de pares. Do Vietnã vieram 8,3 milhões de pares, enquanto a Indonésia respondeu por 4,78 milhões.
A expansão ocorre mesmo com a produção brasileira em queda. Segundo a Abicalçados, a fabricação nacional recuou 5,6% no primeiro semestre.
Para o presidente-executivo da entidade, Haroldo Ferreira, o cenário combina dois movimentos negativos para os fabricantes brasileiros: retração das exportações e avanço dos importados.
A entidade afirma que já solicitou ao governo federal medidas de salvaguarda e outros instrumentos de defesa comercial, além de mecanismos de controle e monitoramento das importações.
Estados Unidos e Argentina também pesam
No mercado externo, os dois principais destinos do calçado brasileiro perderam força. Os Estados Unidos, responsáveis por cerca de um quinto da receita das exportações brasileiras do setor, receberam US$101 milhões em calçados entre janeiro e julho, queda de 25%. O volume diminuiu 9,3%, para 6,25 milhões de pares.
A Argentina apresentou retração ainda mais acentuada. As vendas para o país somaram US$48,8 milhões, queda de 58,4%, enquanto o volume recuou 57,7%.
O Paraguai aparece na terceira posição. As exportações para o país cresceram 10,4% em receita, embora o volume tenha diminuído 7,1%.
A combinação desses resultados deixa o setor brasileiro mais exposto justamente em um momento de maior pressão sobre o comércio internacional. A aplicação de tarifas adicionais pelos Estados Unidos acrescenta uma dificuldade a uma indústria que já vinha perdendo espaço em seus principais destinos.
ANÁLISE INDÚSTRIA NEWS
O dado mais preocupante para a Bahia não é apenas a queda de 51% na receita em julho. É a velocidade da deterioração.
O setor já acumulava perdas no ano e registrou agora um resultado mensal muito pior do que a média nacional. A exportação baiana caiu quase três vezes mais em receita do que a brasileira em julho, enquanto a retração em volume também foi muito superior.
Os números disponíveis não permitem apontar uma causa específica para o desempenho da Bahia. Mas deixam claro que o estado está inserido em um ambiente externo adverso, marcado pela retração das vendas para mercados importantes e pelo aumento da concorrência de produtos asiáticos no mercado brasileiro.
Há ainda uma segunda frente de preocupação. O avanço das importações acontece justamente quando a produção nacional diminui. Isso pode aumentar a pressão sobre fábricas brasileiras, sobretudo se o mercado doméstico continuar absorvendo produtos importados em um ambiente de demanda mais fraca.
Para a Bahia, que já vinha apresentando redução nas exportações no acumulado do ano, julho funciona como um sinal de alerta.

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