
A Braskem Idesa, joint venture entre a brasileira Braskem e o Grupo Idesa, do México, entrou com pedido de proteção contra credores nos Estados Unidos, em mais um sinal da deterioração financeira enfrentada pela petroquímica. A companhia recorreu ao Chapter 11, mecanismo semelhante à recuperação judicial brasileira, que permite manter as operações enquanto negocia a reorganização das dívidas.
Segundo informações da Bloomberg, o pedido foi apresentado nesta segunda-feira no Tribunal de Falências do Distrito Sul do Texas. Nos documentos judiciais, a Braskem Idesa declarou possuir ativos e passivos entre US$ 1 bilhão e US$10 bilhões.
A empresa, porém, não pretende permanecer por muito tempo sob proteção judicial. A expectativa é concluir o processo em 60 a 90 dias, após um acordo de reestruturação negociado com os principais credores, acionistas e demais partes envolvidas. O plano prevê uma redução de mais de US$920 milhões na dívida.
A Braskem continuará como acionista majoritária da companhia reorganizada. A brasileira detém atualmente 75% da Braskem Idesa.
Crise de liquidez apertou operação
A entrada no Chapter 11 é resultado de meses de negociações para tentar reorganizar o passivo da empresa. A Braskem Idesa deixou de pagar juros de títulos de dívida em dólares com vencimentos em 2029 e 2032, aumentando a pressão sobre o caixa.
A Bloomberg relata que a companhia também vinha operando abaixo de sua capacidade produtiva. O problema ganhou peso em um momento particularmente delicado para o setor petroquímico: depois de anos de preços pressionados pelo excesso de oferta, o aumento das cotações do petróleo provocado pelo conflito no Oriente Médio abriu espaço para alguma recuperação das margens.
A Braskem Idesa, contudo, não conseguiu aproveitar integralmente esse movimento justamente por causa das restrições financeiras e operacionais.
O problema não é isolado. A indústria petroquímica mundial convive há anos com uma expansão da capacidade de produção que reduziu margens e pressionou principalmente empresas com estruturas financeiras mais frágeis. A situação chegou também à controladora brasileira.
Uma crise que alcança a Braskem
Com origem na Bahia, a Braskem, uma das maiores produtoras de resinas termoplásticas do mundo, enfrenta seus próprios problemas financeiros. A companhia atravessa um período prolongado de margens comprimidas. Ao mesmo tempo, a Braskem carrega as consequências financeiras do desastre ambiental provocado pelo afundamento do solo em áreas de Maceió, associado à exploração de sal-gema pela companhia. As obrigações relacionadas ao caso contribuíram para pressionar a estrutura financeira da empresa e levaram à perda do grau de investimento.
Nesse cenário, a crise da operação mexicana adiciona uma nova frente de atenção para a Braskem. Embora a reestruturação da Braskem Idesa possa reduzir a dívida da joint venture e preservar sua operação, o processo evidencia a dificuldade de geração de caixa enfrentada pelo negócio petroquímico em um ambiente de excesso de oferta.
Aporte
Em fato relevante ao mercado, divulgado nesta terça-feira, a Braskem, acionista controladora da Braskem Idesa, disse que contribuirá com um total de US$476 milhões (dos quais o montante de aproximadamente US$ 126 milhões já foi disponibilizado antes do pedido de Chapter 11), “reforçando seu compromisso com a Braskem Idesa, ativo estratégico, e com o seu crescimento futuro”.
“Após a conclusão do processo, a Braskem continuará detendo participação majoritária no capital social
da Braskem Idesa. As operações da Braskem Idesa continuarão normalmente e sem interrupções”, afirma o comunicado, assinado Carlos Augusto Machado Pereira de Almeida Brandãol, diretor Financeiro e de Relações com Investidores.
História
A Braskem Idesa foi criada em 2010, em uma parceria entre a Braskem e o Grupo Idesa, para desenvolver o projeto Ethylene XXI, em Veracruz, no México.
O complexo foi concebido para produzir polietileno a partir de etano e recebeu investimentos de aproximadamente US$ 5,2 bilhões. A produção começou em 2016.
A unidade tornou-se uma peça importante da estratégia de internacionalização da Braskem, mas passou a enfrentar dificuldades em um mercado marcado por custos, oferta elevada e margens mais estreitas.
De acordo com a Bloomberg, a companhia passou meses tentando alcançar uma solução extrajudicial com os credores antes de recorrer à proteção judicial. O acordo agora apresentado busca evitar uma deterioração maior da liquidez e preservar a operação durante a reorganização.
ANÁLISE INDÚSTRIA NEWS
O caso Braskem Idesa mostra que a crise da petroquímica deixou de ser apenas uma questão de ciclo de preços. O excesso de capacidade instalada virou um problema estrutural para produtores que precisam financiar operações pesadas em capital e, ao mesmo tempo, convivem com margens comprimidas.
Para a Braskem, a situação ganha uma camada adicional. A companhia terá de acompanhar a reorganização da operação mexicana enquanto administra seus próprios desafios financeiros e as obrigações relacionadas ao passivo ambiental de Alagoas.
A redução de mais de US$ 920 milhões na dívida da Braskem Idesa pode aliviar a pressão sobre a joint venture. O ponto decisivo será saber se, depois da reestruturação, a operação conseguirá gerar caixa suficiente para sustentar o negócio em um mercado que continua marcado por excesso de oferta.
O Chapter 11 resolve a dívida. Não resolve, sozinho, o problema de rentabilidade da petroquímica.
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