
A indústria química brasileira enfrenta um ciclo prolongado de baixa, pressionada por custos elevados, produtos importados e perda de competitividade. Na avaliação de Carlos Alfano, presidente do Comitê das Cadeias Química e Petroquímica (CCQP), criado neste mês pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), o problema não se resume ao desempenho das empresas do setor. Como a química está na base de cadeias que vão da construção civil ao agronegócio, passando por saúde, automóveis e bens de consumo, a perda de espaço da produção nacional pode ampliar a dependência de importações e reduzir a capacidade de investimento da indústria brasileira.
Diretor industrial da Braskem na Bahia e presidente do Cofic, Alfano defende uma agenda que combine acesso a matérias-primas mais competitivas, redução dos custos de energia, defesa comercial, aumento de produtividade e políticas públicas de longo prazo. Na Bahia, o desafio ganha dimensão adicional: o Polo de Camaçari concentra cerca de 35% da produção petroquímica brasileira e passa por um novo ciclo de investimentos, com projetos e retomadas que podem ampliar o peso do complexo na economia do estado.
Nesta edição do 5 PERGUNTAS, Alfano explica por que o gás natural se tornou uma variável decisiva para a indústria, fala sobre os desafios do Polo de Camaçari e detalha o papel que o novo Comitê pretende desempenhar na tentativa de reconstruir a competitividade da cadeia química e petroquímica.

Pergunta – A criação do Comitê das Cadeias Química e Petroquímica (CCQP) acontece em um momento de grandes transformações para a indústria. O setor enfrenta custos elevados de energia e gás natural, concorrência crescente de produtos importados e novas barreiras comerciais. Qual é o diagnóstico que o senhor faz do atual momento da indústria química e petroquímica brasileira?
Carlos Alfano – A indústria petroquímica global vive, há alguns anos, um ciclo prolongado de baixa, marcado por spreads comprimidos, aumento dos custos financeiros e desaceleração da demanda em diversas regiões. No Brasil, o setor sofre pressão dos produtos importados, especialmente dos Estados Unidos e China, que chegam ao país com custos mais baixos em razão de subsídios industriais. Temos, ainda, uma desvantagem estrutural relacionada à matéria-prima: o principal insumo da indústria petroquímica brasileiraé a nafta, mais cara que o etano, matéria-prima utilizada nos Estados Unidos, no Oriente Médio e em outras regiões. Além disso, o setor precisa lidar com a desmobilização de empresas e com a quebra da integração de cadeias produtivas.
Desta forma, é fundamental a busca de ações para aumentar a competitividade do setor, com ações para proteção do mercado interno frente a prática de mercado desleais (implementação de antidumping, tarifas de importação etc.), acesso a matéria prima mais competitiva, aumento de produtividade e construção de políticas públicas para fortalecimento da indústria nacional.
Pergunta – O novo Comitê nasce justamente para reunir empresas, entidades e especialistas em torno de uma agenda comum. Na prática, como esse fórum pode contribuir para recuperar a competitividade da cadeia química e petroquímica da Bahia?
Carlos Alfano – O Comitê foi criado para representar um dos mais importantes setores industriais, o químico e petroquímico, conhecido também como a “indústria das indústrias”, por fornecer os insumos utilizados por todos os players da cadeia produtiva. Por isso, os temas relacionas à indústria química e petroquímica são transversais e de grande interesse para empresas de outros setores.
A reinvenção do Polo de Camaçari não será feita de forma isolada, mas por meio de uma forte convergência entre indústria e poder público
Ao reunir empresas, entidade setoriais e representantes de classe, o Comitê vai debater e buscar soluções práticas para temas estratégicos ao setor, como o acesso a matérias-primas competitivas, políticas públicas que fortaleçam a indústria, transição energética, potenciais sinergias do setor, entre outros. O CCQP manterá um diálogo permanente para promover a convergência entre o setor produtivo e o poder público, tendo como principal objetivoo fortalecimento sustentável da competitividade do setor.
Pergunta – O gás natural aparece como uma das principais pautas do Comitê. Por que esse tema é tão decisivo para a competitividade da indústria química?
Carlos Alfano – Porque afeta diretamente a estrutura de custos do setor, já que matérias-primas e energia podem representar até 80% do custo de produção de uma planta petroquímica. Na indústria química e petroquímica, o gás natural desempenha duas funções essenciais: atuar como matéria-prima, por exemplo, para a produção de metanole fertilizantes nitrogenados, como a ureia e a amônia; e servir como fonte de energia, garantindoa estabilidade e a previsibilidade térmica necessárias aos processos químicos contínuos, evitando prejuízos operacionais.
A ausência de gás natural a preços competitivos aumenta a dependência do Brasil em relação às importações. Soma-se a isso o fato de que o gás natural no país está entre os mais caros do mundo, comprometendo diretamente a concorrência da indústria brasileira nos mercados internacionais. Essa disparidade de custo do insumo em comparação a outros países do mundo, dificulta a competição com os produtos importados, contribuindo para os déficits bilionários na balança comercial brasileira de produtos químicos.
Além disso, a indústria química e petroquímica global está em constante transformação em busca da redução de emissões de carbono. Nesse contexto, o gás natural faz parte da estratégia de transição, especialmente quando associado a ganhos de eficiência energética e maior flexibilidade operacional.
Pergunta – A Bahia abriga o maior complexo petroquímico integrado do Hemisfério Sul e responde por cerca de 35% da produção petroquímica brasileira. Como avalia o atual momento do Polo?Como ele pode se reinventar diante das novas demandas da indústria global?
Carlos Alfano – O Polo de Camaçari é um grande diferencial para a indústria baiana e nacional, por integrar diferentes cadeias produtivas em um mesmo ecossistema competitivo, inovador e resiliente. Ele possui importância estratégica por fornecer insumos para diversos segmentos da economia, como embalagens, construção civil, saúde, agronegócio, automóveis, eletrônicos e bens de consumo. Um dos seus principais diferenciais é o modelo integrado de operação, no qual as empresas compartilham infraestrutura, dutovias, energia, utilidades e logística, ampliando a eficiência e a competitividade.
Manter a indústria química e petroquímica forte não significa defender um setor isolado
No entanto, a indústria petroquímica atravessa, há anos, um ciclo de baixa, que afeta diretamente as margens de toda a cadeia produtiva. Além disso, os gargalos da infraestrutura logística estadual e nacional, bem como a volatilidade do mercado internacional, exigem níveis cada vez maiores de eficiência operacional para amanutenção da competitividade.
O Polo de Camaçari passa por um momento de crescimento com a chegada da BYD, a retomada da Fafen, a planta de cloro soda da Unipar, a nova fábrica de ácido sulfúrico do grupo Unigel, entre outros. A reinvenção do Polo de Camaçari não será feita de forma isolada, mas por meio de uma forte convergência entre indústria e poder público. O Polo conta com resiliência, engenharia de ponta e integração logística para continuar sendo uma das principais forças motrizes da indústria brasileira. O foco do comitê é garantir que ele seja cada vez mais integrado, competitivo e sustentável.
Pergunta – A cadeia química abastece praticamente toda a indústria de transformação. Quando esse setor perde competitividade, quais são os reflexos para a economia?
Carlos Alfano – Como mencionado anteriormente, a indústria química está no primeiro elo da cadeia produtiva. Portanto, quando perde competitividade, os efeitos não ficam restritos às unidades industriais do setor, mas se propagam por toda a economia nacional. Quando a química nacional perde mercado, abre-se espaço para uma maior entrada de produtos importados, o que significa uma maior dependência externa e insegurança de suprimento já que, em momentos de crises geopolíticas ou gargalos logísticos globais, o país corre o risco de desabastecimento de itens essenciais.
Além disso, a indústria química de base exige grandes investimentos de longo prazo. Com a competitividade reduzida, novos aportes tornam-se menos atrativos, o que limita a expansão da capacidade produtiva e a geração de empregos e renda no país. Manter a indústria química e petroquímica forte não significa defender um setor isolado. É preservar a soberania econômica, fortalecer a capacidade produtiva nacional e sustentar a competitividade da indústria brasileira como um todo.
O QUE FICA DA CONVERSA
- A crise da química é estrutural – O setor enfrenta um ciclo prolongado de baixa, com spreads comprimidos, custo financeiro elevado, demanda mais fraca e competição internacional. No Brasil, a situação é agravada pelo custo da matéria-prima e pela entrada de produtos importados.
- O gás deixou de ser apenas uma questão energética – Matérias-primas e energia podem representar até 80% do custo de produção de uma planta petroquímica. Por isso, o preço do gás interfere diretamente na capacidade de competir com produtores de outros países.
- O problema não termina na indústria química – A química é a base de diversas cadeias produtivas. Quando perde competitividade, aumenta a entrada de produtos importados, diminuem os incentivos para novos investimentos e cresce a dependência externa.
- Camaçari ainda tem ativos para um novo ciclo – Apesar das dificuldades, Alfano não descreve um Polo em retração. Ele aponta BYD, retomada da Fafen, nova planta de cloro-soda da Unipar e fábrica de ácido sulfúrico da Unigel, além da própria integração industrial do complexo, como elementos de um possível novo ciclo.
POR TRÁS DAS RESPOSTAS
Carlos Alfano é baiano, engenheiro químico formado pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde também concluiu mestrado em Engenharia Química. Tem MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV), com módulo internacional na Cranfield School of Management, na Inglaterra. Sua trajetória profissional está ligada à Braskem, onde ingressou como estagiário em 1996. Ao longo da carreira, passou por áreas de processos, planejamento e produção, ocupando posições de engenharia, coordenação e gerência nas unidades do Polo de Camaçari. Atualmente, como diretor industrial da Braskem na Bahia, é responsável pelas unidades industriais da empresa no Complexo Industrial de Camaçari. Também preside o Comitê das Cadeias Química e Petroquímica (CCQP) e o Comitê de Fomento Industrial de Camaçari (Cofic).
5 PERGUNTAS é um conteúdo exclusivo do Indústria News. Publicada às segundas-feiras, a série entrevista empresários, executivos, pesquisadores e autoridades para discutir, em cinco perguntas, os temas que estão redesenhando a indústria brasileira. Um espaço para ouvir quem toma decisões, produz conhecimento e ajuda a construir os próximos capítulos do desenvolvimento econômico do país.
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