
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) deu o sinal verde para o edital de concessão da Rota dos Sertões, que abrange 502 km das BRs 116 e 324, entre Salgueiro (PE) e o estratégico contorno de Feira de Santana (BA).
Com o leilão marcado para 28 de maio e investimentos previstos de R$4,3 bilhões em 30 anos, o projeto nasce sob os holofotes de uma Bahia que já não aceita promessas vazias no asfalto.
Dos 502 km do pacote, nada menos que 436 km estão em solo baiano. É, portanto, uma concessão que impacta diretamente a espinha dorsal logística do estado.
A concessão prevê 108 km de duplicações e obras esperadas, como o contorno de Serrinha. Até tudo isso sair efetivamente do papel e virar benefício para o usuário, são alguns anos.
Contudo, o custo para o setor produtivo e para o cidadão será imediato: cinco praças de pedágio, sendo quatro na Bahia (Feira de Santana, Teofilândia, Quijingue e Chorrochó), com uma tarifa base de R$ 0,09536 por km.
Em um estado que ainda amarga as cicatrizes do fracasso da gestão da BR-324 pela ViaBahia, o anúncio de novas cancelas gera mais ceticismo do que celebração.
No papel, a modelagem passou pelo BNDES, Ministério dos Transportes e TCU. Segurança jurídica não falta. O que falta é confiança cega.
A Rota dos Sertões, que atravessa 14 municípios baianos, não pode virar um novo cenário de “luta” para o caminhoneiro e para o empresário que escoa a produção pelo maior entroncamento do Nordeste.
O setor público e as lideranças regionais precisam manter o radar ligado: o leilão pelo “menor valor de tarifa” é atraente no papel, mas sem cumprimento rigoroso do cronograma de obras, o pedágio vira apenas mais um imposto sobre a competitividade baiana.
Depois do martelo batido, a ANTT terá obrigação de agir com rigor. Afinal, concessão não pode ser sinônimo de promessa. Tem que ser entrega.
O trecho em questão é chamado de Rota dos Sertões devido à obra “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, cuja história se passa na região cortada pela estrada
ROTA DOS SERTÕES
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Extensão Total: 502 km (BR-116/BA/PE e BR-324/BA).
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A Bahia no Projeto: 436 km do trecho total ficam em território baiano (87% da concessão).
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Investimento Previsto: R$ 4,3 bilhões ao longo de 30 anos (recuperação, manutenção e duplicação).
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Principais Intervenções: 108 km de duplicação; Implantação do Contorno Viário de Serrinha (BA); 5,2 km de faixas adicionais e novas passarelas.
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Pedágios: 5 praças de cobrança (sendo 4 na Bahia).
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Calendário do Leilão:
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Entrega de propostas: 26 de maio de 2026.
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Leilão na B3: 28 de maio de 2026.
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Assinatura do contrato: Até setembro de 2026.
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R$ 5,1 bilhões
A nova rodada de investimentos aprovada pelo Ministério de Portos e Aeroportos reforça um ponto estratégico para a economia nacional e coloca a Bahia no radar. O Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante aprovou R$5,1 bilhões para nove projetos de ampliação e modernização de portos brasileiros. Entre os empreendimentos contemplados está o Porto de Aratu. O projeto prevê novos silos e melhorias estruturais e operacionais, ampliando a eficiência no escoamento de granéis e fortalecendo a competitividade do complexo industrial
Vanádio e cromo: o monopólio baiano
O novo Anuário Mineral Brasileiro 2025, divulgado pela ANM com dados base de 2024, confirma a força do subsolo baiano na balança comercial. A Bahia fechou o ano como o quarto maior estado em valor de produção mineral comercializada, com um montante de R$8,08 bilhões.
O estado está colado em Goiás (R$8,4 bi) e à frente de estados tradicionais como o Espírito Santo, consolidando-se como o motor mineral do Nordeste.
O que diferencia a Bahia no cenário nacional não é apenas o volume, mas a exclusividade. O estado mantém o posto de único produtor nacional de cromo e vanádio, minerais essenciais para ligas de aço de alta resistência e para a indústria de defesa e aeroespacial.
Além disso, a Bahia lidera a produção de níquel e é a segunda em grafita, ambos componentes críticos para a transição energética e a fabricação de baterias.
Ouro e ferro no Top 4
A diversidade da pauta mineral baiana também se reflete nos metais nobres e de base: o estado é o terceiro maior produtor de cobre do país e o quarto maior em ouro e ferro.
Com 274 minas em produção no Brasil e uma arrecadação de CFEM que chegou a R$7 bilhões, o setor mineral baiano mostra que é menos suscetível às oscilações de uma única commodity, ao contrário de Minas Gerais e Pará, que são reféns do minério de ferro.
Embora os números sejam robustos, o desafio para 2026 é transformar esse valor de produção em verticalização industrial no estado.
Não basta ser o maior produtor de níquel e o único de vanádio se o beneficiamento final ocorre longe das terras baianas.
O próximo passo para o setor público e privado é atrair indústrias de componentes que utilizem esses “metais do futuro” aqui mesmo, agregando valor à exportação que hoje tem a China como destino quase absoluto.

Radar da Indústria é uma coluna semanal sobre os movimentos que moldam a indústria e a economia da Bahia. Aqui, investimentos, negócios, energia, infraestrutura e política econômica são analisados sem maquiagem. O foco está no que muda o jogo – e no que trava o desenvolvimento. Com informação, bastidor e leitura crítica, o Radar aponta riscos, oportunidades e contradições. Porque entender a indústria é entender o futuro do estado.
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