
A semana industrial de 8 a 14 de fevereiro de 2026 concentrou movimentos simultâneos de risco e oportunidade para a indústria baiana e nordestina: a Petrobras abriu mão do controle da Braskem – mantendo, porém, o contrato de vapor com a Fafen -, enquanto o IBGE confirmou que a deflação na porta de fábrica chegou a 4,53% em 2025, o alívio de custo mais expressivo em décadas.
No cenário macro, a confiança dos empresários industriais voltou a recuar, completando 14 meses consecutivos abaixo de 50 pontos, sinal de que o crédito caro freia a retomada mesmo com custos em queda. Do lado positivo, as exportações de carne bovina registraram o melhor janeiro da história, com US$1,4 bilhão embarcados – dado que ecoa diretamente nas plantas frigoríficas do Nordeste e do oeste baiano.
A maior deflação industrial em duas décadas
O Índice de Preços ao Produtor (IPP), divulgado pelo IBGE em 11 de fevereiro, registrou deflação acumulada de –4,53% em 2025 – a segunda maior da série histórica iniciada em 2014, superado apenas por 2023 (–4,99%). Os principais vetores foram: queda de 10,47% em alimentos (açúcar e derivados de soja), recuo de 14,39% no setor extrativo (petróleo e minério de ferro) e retração de 8,06% na metalurgia. A valorização do real em 10,6% contra o dólar durante 2025 amplificou os efeitos deflacionários nos produtos transacionados em moeda estrangeira.
O que isso significa para a indústria baiana?
Em termos estruturais, a deflação de custos na porta de fábrica é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo em que comprime as receitas de quem vende commodities industriais (caso da petroquímica de Camaçari, que registrou queda de 8,2% em produtos químicos), reduz os custos de insumos de toda a cadeia downstream – da construção civil ao agronegócio. Para os gestores industriais, a janela de 2026 é de recomposição de margens, especialmente nos segmentos que conseguirem manter preços de venda enquanto capturam a deflação de matérias-primas.

Os 4 movimentos que definiram a semana
Petrobras fecha acordo com a Braskem
Em 29 de janeiro de 2026, com vigência a partir de 1º de fevereiro, a Braskem assinou contrato de fornecimento de vapor de alta pressão à Fafen (Petrobras) em Camaçari, cobrindo estimados 240 toneladas de vapor/dia pelo período de fevereiro/2026 a dezembro/2030, a um valor total de R$ 161,5 milhões. Paralelamente, em 12 de fevereiro, a Petrobras anunciou que não exercerá os direitos de preferência e tag along na venda das ações da Novonor ao fundo Shine Fidc – mantendo sua participação de 47% como sócia minoritária, mas sem assumir o controle da petroquímica.
O Polo Industrial de Camaçari responde por mais de 33% do Valor da Transformação Industrial do Nordeste. O contrato de vapor garante continuidade operacional à Fafen — unidade estratégica para a cadeia de fertilizantes —, enquanto a indefinição sobre o controle da Braskem cria incerteza de longo prazo sobre investimentos no complexo petroquímico baiano. A empresa que assumir o controle definirá os próximos ciclos de capex da maior petroquímica do País.

Exportações de carne explodem
O Brasil registrou o melhor janeiro da história em exportações de carne bovina: 278 mil toneladas embarcadas (+16,4% sobre jan/2025) e receita de US$ 1,416 bilhão (+37,9%), segundo Abrafrigo/Secex. A China liderou com US$650 milhões e os EUA foram o segundo destino com US$193 milhões. Juntos, os dois países concentraram cerca de 60% da receita total. Alerta: a China impôs cota de 1,1 Mt para 2026, com tarifa adicional de 55% sobre excedentes.
A pecuária bovina nordestina e baiana é diretamente beneficiada pela alta do boi gordo e pela demanda externa aquecida. A concentração em dois compradores, contudo, representa um risco de dependência crítica: a cota chinesa pode frear crescimento ainda no primeiro semestre. Frigoríficos instalados na região precisam acelerar a diversificação para mercados árabes e asiáticos emergentes como Filipinas e Vietnã, que ampliaram compras em mais de 40%.
Custos de produção recuam 4,5% em 2025
O IBGE divulgou em 11 de fevereiro o IPP anual de 2025: deflação de 4,53% na porta de fábrica – a segunda maior queda desde 2014. Os principais vetores foram alimentos (–10,47%), extrativas (–14,39%) e metalurgia (8,06%), todos impactados pela valorização do real (+10,6%) e pelo aumento da oferta global de commodities. Apenas bens de capital fecharam o ano com variação positiva (+0,78%).
Para a indústria baiana, o IPP negativo é uma janela de recuperação de margens, especialmente no refino de petróleo, que cresceu 5,1% em volume em 2025. Porém, a combinação de custos mais baixos com Selic a 15% ao ano e crédito restrito neutraliza parte do benefício: indústrias com endividamento elevado não conseguem capturar o ganho operacional. O dado reforça o argumento de que a retomada plena depende de afrouxamento monetário.
Indústria completa 14 meses sem confiança
O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), divulgado pela CNI em 12 de fevereiro, recuou 0,3 ponto em fevereiro de 2026, atingindo 48,2 pontos – abaixo da linha de neutralidade (50 pts) pelo 14º mês consecutivo. O Índice de Condições Atuais caiu a 43,8 pontos; o de Expectativas recuou a 50,4. A pesquisa ouviu 1.103 empresas (pequenas, médias e grandes) entre 2 e 6 de fevereiro.
O quadro é especialmente preocupante porque a queda ocorre apesar da deflação de custos e das expectativas positivas para a economia como um todo. Os empresários avaliam negativamente a situação de suas próprias empresas – sinal de que a competição com importados e a retração da demanda interna (impactada pelos juros altos) superam os ganhos de eficiência. Para a indústria baiana, cuja petroquímica já enfrenta ciclo negativo, o cenário exige cautela máxima em novos projetos de expansão.
AGENDA
Indústria News · Análise Semanal — Edição 8–14 de fevereiro de 2026
Fontes: IBGE/PIM-PF Regional, IBGE/IPP, CNI/ICEI, Abrafrigo/Secex, Fieb, Petrobras, Braskem, TipRanks, Agência Brasil, CNN Brasil, CompreRural.
Análise elaborada para fins informativos e executivos. Não constitui recomendação de investimento.
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