
Quem trafegava pela BR-324 nas décadas de 70 e 80, ao olhar para o Centro Industrial de Aratu (CIA), via uma silhueta imponente que nunca dormia. Era a Sibra (Eletrosiderúrgica Brasileira S.A.), inaugurada em 1970 e que prometia colocar o estado no mapa da produção de aço e reduzir a dependência de insumos vindos do Sudeste. . O “som” da Sibra era um rugido contínuo vindo de seus fornos elétricos de redução, e o seu “marco urbano” era o clarão alaranjado que refletia no céu de Simões Filho durante as madrugadas, sinal de que o manganês estava sendo transformado em ferroligas de altíssima qualidade para exportação.
A Sibra não era apenas mais uma fábrica; ela chegou a ser a maior produtora de ferromanganês da América Latina e a segunda maior do mundo. Seu impacto inicial foi um divisor de águas para a economia baiana, diversificando a pauta do estado para além da agricultura. No seu auge, a empresa era o motor de Simões Filho, gerando mais de 2 mil empregos diretos e fomentando uma rede de fornecedores que ia da manutenção mecânica ao transporte rodoviário. Segundo registros históricos, a empresa foi o pilar que sustentou a emancipação e o crescimento acelerado da cidade.
No entanto, o gigantismo da Sibra também cobrou seu preço em segurança e impacto ambiental. A operação dos imensos fornos elétricos era marcada por riscos constantes, registrando acidentes graves que ficaram gravados na memória dos trabalhadores. Em maio de 1994, a explosão do Forno 6 resultou na morte de um operário e deixou outros 17 feridos. Anos depois, já sob gestão da Vale (como Rio Doce Manganês), novos episódios de explosões por deslocamento de gás e queimaduras severas em metalúrgicos reforçaram um estigma de insegurança que gerava fortes críticas sindicais devido ao histórico de perigo no manuseio das ligas incandescentes.
Para além dos portões, a convivência com as comunidades vizinhas, como Cotegipe e Mapele, foi marcada por tensões ambientais que duraram décadas. O “pó da Sibra” – a emissão de particulados de manganês – tornou-se o centro de batalhas judiciais e estudos acadêmicos da Ufba, que apontavam riscos de contaminação e impactos na saúde da população local.
Embora a empresa tenha firmado Termos de Ajuste de Conduta (TAC) para compensações habitacionais e monitoramento da qualidade do ar, o legado ambiental permanece como um tema sensível, simbolizando o desafio histórico de conciliar a indústria pesada com a preservação da saúde pública no ecossistema de Aratu.
Privatização
Os problemas estruturais começaram a surgir com força no final dos anos 80 e início dos 90. O cenário era de crise externa, com a queda nos preços das ferroligas no mercado internacional e o aumento galopante dos custos de energia elétrica – insumo básico para seus fornos. Internamente, a necessidade de investimentos massivos em modernização tecnológica pesava. Conforme reportado pela imprensa na época, a Sibra passou por um turbulento processo de privatização em 1994, quando o controle estatal (via BNDES) foi transferido para a Companhia Vale do Rio Doce.
O fechamento da “marca” Sibra ocorreu de forma gradual através de uma fusão. Em 2000, a Vale unificou suas operações de ferroligas sob a bandeira da Vale Manganês. O nome Sibra desapareceu das fachadas, e a gestão passou a ser centralizada fora da Bahia.
Anos depois, com a crise global do aço e a reestruturação da própria Vale, as operações em Simões Filho sofreram cortes drásticos até o encerramento definitivo das atividades. O impacto foi devastador para os trabalhadores locais; muitos profissionais altamente qualificados viram-se sem mercado, e as imensas instalações tornaram-se esqueletos industriais que ainda hoje evocam nostalgia.
Hoje, quem visita o CIA ainda vê os galpões que um dia abrigaram a Sibra, mas o silêncio substituiu o rugido dos fornos. O legado da empresa, no entanto, permanece na memória de uma geração de metalúrgicos que ajudou a construir a base industrial da Bahia. A história da Sibra é o lembrete de que, para a indústria ser eterna, ela precisa vencer a volatilidade dos preços e, acima de tudo, priorizar a segurança de quem opera suas engrenagens.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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